Às vezes penso em ser menos vulnerável e transformar meu coração de manteiga em pedra lascada

  No meu aniversário recebi um texto de presente. Chama-se ‘‘A Última Crônica’’, é de Fernando Sabino e tem uma singeleza absoluta. O autor relata um dia sem inspiração, quando só encontrou um tema sobre o qual escrever depois de ir à padaria. Lá, um casal humilde comemora o aniversário da filha com um único pedaço de bolo, uma fatia amarela, triangular e fina, onde espetam três velinhas. Apesar da humildade, tudo é só felicidade e, assim, Sabino descobre um motivo para escrever o que gostaria que fosse sua ‘‘última crônica’’.
  A beleza deste episódio me põe a pensar sobre os caminhos de quem escreve. Sobre como é importante ter olhos para ver a poesia que se infiltra no cotidiano. Já falei aqui sobre um homem que assobiava num supermercado e que me pareceu o ‘‘último homem que assobia’’, porque o hábito parece extinto junto com outras ‘‘antigüidades’’, como usar sombrinhas em dia de sol, lenços e relógios de bolso.
  Outro dia, um destes flagrantes do cotidiano me surpreendeu numa avenida. Um carroceiro, destes que carregam sucata, levava a mulher com o filho pequeno no colo. Pareceu-me que estavam todos juntos em mais um dia de trabalho e, no alto do cavalo, ia um cachorro garboso, de boné e óculos escuros, como um cidadão enfeitado. Compreendi que tinha visto um cartão-postal, um presente da vida que abre frestas poéticas em locais e momentos inusitados. No entanto, nem todo mundo os vê e às vezes tenho dúvidas se enxergar demais é, afinal, meu bem ou o meu mal.
  É bom desvendar num olhar onde mora a poesia, é bom saber que acima das nossas cabeças pardais fazem ninhos em semáforos, é bom lembrar que o que para uns não significa nada, para outros significa um motivo para se acreditar na vida e no seu misterioso potencial de colar decalques líricos no cotidiano. A minha dúvida é se vale mesmo a pena ser um destes transeuntes sempre sensíveis. Ou seria melhor ser uma destas pessoas pragmáticas que sentem menos, enxergam menos e, até por isso, parecem imunizadas a derretimentos precoces ou tardios, a emoções que fazem rir ou chorar.
  Não é de hoje que penso em transformar meu coração de manteiga em pedra lascada. Um pouco evoluída sim, mas lascada, num plano de civilização suportável para agüentar os embates de um mundo que pode se abrir como um templo de belezas ou como um circo de horrores.
  Se há alguns anos, só víamos crimes horríveis em livros especializados, em compêndios de Psicanálise folheados por taciturnos doutores, hoje temos notícias de serial killer e pais incestuosos que aprisionam filhas num piscar de olhos. O mundo virtual e a tecnologia escancaram coisas que antes eram do conhecimento de especialistas ou ditas a boca miúda. Assim, saber e sentir demais pode não ser um grande negócio. Penso mesmo que sejam coisas apropriadas a doutores e poetas românticos, mas que podem fazer um mal danado a um mortal comum.
  Pensando nisso, fui perguntar a um amigo, especialista em almas, se existe algum modo de sentir menos. Ele me disse: ‘‘As mudanças interiores só podem ser decididas por cada um’’. E eu continuei na dúvida: não sei se posso ser uma pessoa menos vulnerável. Se vou conseguir transformar meu coração de manteiga em pedra lascada. Se conseguir, talvez não veja por aí tantos cartões-postais, mas talvez também não me impressione tanto com o circo de horrores. Eu vivo um impasse. Por ora, vou até a padaria para ver se tenho a mesma sorte de Sabino. Quem sabe encontre por lá a poesia necessária para escrever o que seria minha última crônica. E torço para que ela seja singela e pura como um sorriso.

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