Celia Musilli
Marina Silva sai do governo e perdemos uma cidadã de primeira grandeza no cenário político tomado por buracos negros
Com a saída de Marina Silva do Ministério do Meio Ambiente, a Amazônia ficou sem mãe. Afinal, foi ela que, nos últimos anos, correu os riscos e deu quantas trombadas foram necessárias com outros setores do governo para defender os recursos naturais, as florestas e, em última instância, a vida.
Nestes tempos obtusos de fraca ideologia, em que as ''utopias'' ressurgem nos jornais apenas como fotos amareladas do vigoroso maio de 68, contar com uma ministra que ainda defenda uma causa, que não seja a ''causa própria'', não deixava de ser uma graça e um privilégio que perdemos.
Com a saída de Marina ficamos sem a ''ministra do bem''. Se a figura de linguagem parece aos leitores um exagero, peço que olhem em volta, confiram nossos quadros políticos e, rapidinho, a expressão que utilizo começará a fazer sentido, mais que isso, talvez faça cócegas em algumas consciências.
As trilhas políticas de Marina Silva começaram na condição de menina pobre, filha de seringueiros da Amazônia. À sombra nada fácil desta condição de vida, ela cresceu sendo admirada pela coragem de suas ações políticas até chegar ao posto de ministra. Lá em cima, ela não padeceu da doença comum, esta espécie de dengue do poder, que afrouxa os ânimos, sobe à cabeça e transforma pessoas, antes dignas, em vilões ou capachos das circunstâncias.
Marina continuou na dela, defendendo as causas em que acredita e, mais que isto, evoluiu na sua condição de ''cidadã de primeira grandeza'', no meio de um espaço tomado por buracos negros.
Nos últimos anos, seus desafios não foram pequenos e ela perdeu muitas quedas de braço na tentativa de defender, com a coerência que lhe é peculiar, questões ambientais relevantes.
Em 2003, contrariando a sua vontade, a primeira safra de soja transgênica foi legalizada no Brasil através de uma medida provisória do governo federal. Ela queria mais pesquisas antes da liberação geral, mas perdeu a guerra. Na época, fez questão de deixar claro para Lula que ''não seria uma ministra da jardinagem'' e seguiu em frente, sabendo que a luta não seria fácil.
Em 2005, a queda de braço se daria com o governador do Mato Grosso Sul, Zeca do PT, que queria instalar usinas de álcool e cana-de-açúcar no entorno do Pantanal. A ministra alertou para o perigo de contaminação dos rios. Zeca rebateu que não havia riscos de acidentes nem perigo para os mananciais. Que engodo!
Em 2007 e 2008 os atritos cresceram entre Marina Silva e a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, que insistiu na concessão de licenças ambientais para a instalação de usinas hidrelétricas no rio Madeira, em Rondônia. Não é preciso dizer qual foi o ''tanque'' que ganhou a guerra.
Mas a gota d'água que fez transbordar os rios de Marina, aconteceu na semana passada, quando Lula colocou o ministro extraordinário dos Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger, como coordenador do Conselho Gestor do Plano Amazônia Sustentável (PAS), um nomão bonito que batiza o projeto que prevê a coibição de ações ilegais na Amazônia e uma política à altura dos interesses ambientalistas.
A ação do governo, à revelia da ministra que pediu demissão, deverá ser questionada nos próximos anos por aqueles que lutam pela preservação das florestas e da vida. Mangabeira, como assinalam especialistas, entende tanto de florestas que é dado a sugerir bobagens como a ''construção de um duto que ligaria a Amazônia ao Nordeste.'' E, por enquanto, a coibição de ações ilegais no Brasil parece mais um conto da carochinha. Vocês, como eu, sabem, desde criancinhas, que a cada mês a devastação na Amazônia corresponde ao desmatamento de áreas que somariam ''50 Maracanãs'' (antes falavam assim) o que significa cerca de 1 mil quilômetros quadrados de floresta devastada a cada 30 dias. Parece que ainda querem mais.
E antes que os leitores perguntem por que uma cronista domingueira, dada a textos líricos e de humor, deu agora de se meter com assuntos tão espinhosos, explico que uma das minhas características é não ter sangue de barata. Além disso, com tanta ilegalidade, queimadas e, agora, sem Marina, meus rios também transbordam.
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