Celia Musilli
Quero falar das mães sem me tornar piegas, sem a nostalgia das flores que pulavam dos cartões quando a gente era criança. Pensando bem, as flores de papel tinham alguma singeleza, depois vieram tempos muito mais objetivos, frios, sem metáforas. Tempos de etiquetas e de caixas eletrônicos.
Hoje, o Dia das Mães é lembrado como data de mercadorias. Ela prefere um celular ou um vestido novo? Uma TV com tela de plasma ou um computador? Cartão de crédito? Um brinco? Manta de lã? Quem sabe uma viagem por uma destas agências da felicidade? Preciso encontrar um jeito de abordar as mães, ou melhor, o dia delas, depois que os anúncios passaram a dar preço às emoções.
Me lembro dos tipos de mãe que são sempre uma só, mas tão diferentes. A zelosa mãe judia, a disciplinada alemã, a calorosa mãe negra, a complacente mãe japonesa, sempre tímida, mas que se derrete em sorrisos quando a cria esboça a mínima graça. E a mãe italiana, porque esta conheço bem, sempre querendo saber se você comeu, bebeu, almoçou, jantou e se quer um lanchinho antes de ir pra cama. Ah! a mãe à moda italiana, a dos macarrões, das polentas e dos empadões. Dos terços que saem das gavetas aos domingos, das velas nas procissões , das ave-marias cantadas com voz agudíssima, das lágrimas em dia de casamento: ''Ela estava tão bonita vestida de noiva!''
Mãe para mim é sinônimo de cuidado, de termômetro na mão, de tapinhas nas costas do filho engasgado, de aconchego de cobertores, a que põe o gorro para que a gente não tome sereno, pinga anti-térmico em cálices, arruma armários, encapa cadernos, limpa sapatos, deixa tênis branquinho, te lembra de escovar os dentes, penteia seu cabelo (que zelo!), te cobre de carinho e, sem mais nem menos, te bota no colo ainda que você tenha 20, 30, 40 anos. E continuam dando conselhos.
No fundo, as mães são tão diferentes e, no entanto, tão iguais. Quer deixá-la enfurecida? Saia sem avisar ou deixe a porta aberta. Quer deixá-la enternecida? Diga que a ama, fazendo aquela sua cara eterna de bezerro desmamado.
Mas nunca, nunca mesmo, desfaça a pilha de roupas que ela acabou de passar, grude chiclete em camisa, deixe cadarços desamarrados, banheiro molhado, toalha em cima da cama. Porque é mãe é mãe e, como todas da ''espécie'', para ela existem coisas insuportáveis.
Quer deixá-la feliz? Ofereça-se para lavar a louça, tire montanhas de fotografias dos filhos, netos, bisnetos, envie cartões de boas-festas, melhor ainda, passe com ela o Natal, o Ano-Novo, o Carnaval, todos os feriados e dias santos. Mãe é um tipo que gosta da gente 365 dias no ano e sempre exagera nas comemorações, batendo bolos, arrumando a casa, esperando a volta do filho pródigo e também daquele que, na verdade, nunca saiu da barra da sua saia.
No ouvido delas, o chamado do filho é um mantra, seus apelos, uma dádiva, sua presença, um presente. Muito melhor que um celular novinho em folha, a caixa de bombom, a bolsa que imita Louis Vuitton, a roupa da moda, o perfume da pseudo-emoção. Dia das Mães não tem preço. Um abraço é sempre um bom começo. E pra falar delas, não tem jeito. A gente acaba piegas como um cartão de flores.
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