Sopradas as cinzas, ainda é tempo de fazer um balanço do que foi o Carnaval. Este ano no desfile das peladonas, tivemos Viviane Castro, passista da São Clemente, sendo apontada como um dos motivos da desclassificação da escola pela Liesa – Liga Independente das Escolas de Samba. É que a moça saiu na avenida com um tapa-sexo de menos de 4 cm, quando o permitido é de 6 cm. O que me parece uma piada involuntária.
  Mais do que mostrar corpos nus – e aviso que estou longe de ser moralista nesta questão – o Carnaval reforça o sentido cosmético que a civilização vem tomando. E as mulheres são as ‘‘bandeiras’’ a transformar seus próprios corpos não em objetos de liberação, mas de escravidão a paradigmas de beleza e forma física.
  Quase sem exceção, tivemos na avenida peitos com 300 gramas ou mais de silicone, pernas e braços moldados nas academias, bumbuns levantados à custa de malhação ou de cirurgias. Que beleza, dirão alguns. Que triste, eu digo. Observar corpos humanos padronizados em série, com mulheres que não têm mais seios em formatos diferenciados, com identidade própria, mas lembram um exército transformado à custa de silicone e botox.
  Os seres mutantes, principalmente os do sexo feminino, me põem a pensar como será o ser humano no século 22. Mas não encontro a fórmula. É tão difícil fazer um exercício futurista sobre este assunto quanto tentar imaginar como serão os celulares daqui a cem anos.
  O que é preciso ressaltar, no entanto, é que não somos apenas máquinas nem modelos anatômicos. Somos gente que, além da forma, precisa cultivar o conteúdo, sob o risco de desenvolver frustrações que não se seguram num peitinho de silicone.
  Inspiradas no ideal do corpo perfeito, suponho que, principalmente antes ou depois do Carnaval, moças de menos de 20 anos rumam para as clínicas de estética, querendo construir uma nova imagem, segundo um padrão influenciado pela mídia, pelas revistas masculinas, pelas câmeras da televisão. Elas não querem ser elas mesmas, querem ser ‘‘como a fulana’’. Em função disso, nos últimos 10 anos, as cirurgias de seios em adolescentes aumentaram em 300% em todo mundo.
  Lembro-me de Ivo Pitanguy, que considera a operação estética como um ramo nobre da cirurgia geral, falando de sua profissão como o ato de ‘‘restituir ao corpo em sofrimento sua função e dignidade.’’ E lamento perceber a quantos anos-luz estamos deste conceito na atualidade. Quando na clínica de Pitanguy as moças aparecem requisitando um peito igual ao de Viviane Castro, um bumbum como o de Juliana Paes e a boca de Angelina Jolie, o cirurgião faz o que pode. Mas, dependendo do caso, encaminha para tratamento psicológico. Ele sabe o que faz.
  Num mundo cada vez mais cosmético, falta conteúdo e sobra embalagem não só nas mulheres, mas também nos homens. Temos por aí os metrossexuais, os marombados, os mutantes corporais de todas as espécies tentando se equiparar a suas parcerias femininas. Alguns conseguem ser tão bizarros quanto elas, deslocando a potência que seria do pênis para as coxas e os braços. Ao mesmo tempo, os homens parecem fragilizados e impotentes diante das mulheres deslumbrantes, das ‘‘deusas’’ que oferecem tantos apelos, tanto sexo, tantos bumbuns aos pobres mortais. E o que falta nas relações amorosas – um dos principais objetivos de estimular a atração a partir do corpo – é justamente identidade humana e, em última instância, simplesmente afeto.
  Na era da ‘‘invasão dos corpos’’, cada vez mais belos, estimulamos desejos de uma maneira performática, ilusória, midiática. E acho que tão cedo não descolaremos nossa percepção deste mundo de imagens. Vivemos o século do ‘‘olhar’’, muito vezes evitando sentir e pensar. As ‘‘compensações’’ são tentadoras: roupas, carros, viagens, corpos modificados a guiar nossa libido. Assim, assistimos à sexualização de tudo. Mas isso é muito triste, porque é como se homem moderno transasse com suas mercadorias.

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