CÉLIA MUSILLI
Em 2008 procuro pessoas que eliminem tristezas, angústias e dúvidas desnecessárias como quem derrama de um saco de papel os últimos farelos, as cinzas dos cigarros, os copos descartáveis, gente sem conteúdo e outros inutensílios. No lugar disso tudo que sejam colocados afetos, maçãs, sementes para um campo de lírios, mousse de maracujá para os dias quentes e um urso de pelúcia para os dias frios.
É imprescindível ter um sapato confortável para atravessar a cidade ou, quem sabe, dar a volta ao mundo em 365 dias, com direito a mergulhar descalços por algumas léguas submarinas. É recomendável conhecer as savanas da África, a arquitetura de Atenas, a poesia em pedra do Taj Mahal. Mas não se esqueçam das paisagens interiores, dos dias passados nos quintais da infância, das escaladas em árvores, pendurados em galhos, para ver o mundo de ponta-cabeça, experimentando novos ângulos e estados de espírito.
Prefiram casas voltadas para o leste e aproveitem o sol da manhã, plantem flores no jardim ou, pelo menos, enfeitem as janelas para atrair borboletas, elas dão asas à vida e nos ensinam a exercitar os vôos. Façam cursos de línguas e troquem palavras com os estrangeiros, mas não se esqueçam de cumprimentar os vizinhos dizendo bom dia e boa noite. Pequenas atitudes mudam o humor de quem passa e, sem isso, deixamos a falsa impressão de que os outros são invisíveis, quando o bairro, a cidade e o mundo são povoados de pessoas interessantes. Aprendam a conviver e a apreciar a diversidade de tipos, raças, crenças, fazendo das bandeiras um patchwork de cores mutantes e das fronteiras apenas um registro nos mapas.
Evitem carregar demasiados pesos, eles fazem doer as costas. Mas tenham sempre bons livros, filmes de amor, capim-cidreira para os dias tensos, pimenta para dar ânimo quando a vida exigir um vatapá em vez de insossas salsichas vienenses. Champanhe é bom, mas água pura é melhor e também sucos de cupuaçu, graviola e laranja com gelo. Lembrem-se que leques de palha refrescam e não custam nada. Basta plantar uma palmeira, de preferência à beira-mar, acompanhada de rede e uma música de Caymmi.
Perfumes também são bem-vindos, desde que não irritem as narinas nem impeçam que o ar inunde plenamente os pulmões nos primeiros dias do ano. E que à noite o orvalho seja uma chuva de bem-aventuranças. Nesta manhã, reservem tempo para um café demorado e que haja trocas de olhares, sorrisos marotos, carícias que eriçam. Deixem que as pernas se cruzem e os pés se toquem sem pudor. A expectativa é de puro prazer e completo desprendimento. Amem sem pensar no amanhã, viver bem o presente nos ajuda a desenhar o futuro.
Acreditem nos sortilégios, ainda que por brincadeira, e estimulem a inteligência intuitiva abrindo os olhos interiores que enxergam cada vez mais longe. Pensem que o tempo é uma ilusão, mas vivemos cada dia uma única vez, extraindo deles a compreensão mágica da plenitude quando somos capazes de nos entregar aos instantes. Soltem pipas, façam bolhas de sabão, transformem o cotidiano numa aventura lúdica ainda que as tarefas nos atropelem e a alegria pareça escassa.
Não é preciso ser devoto, mas é bom acreditar em Deus ou nalguma ordem que não deixe as estrelas caírem nem os sonhos despencarem no abismo, porque deles fazemos a trama da felicidade, uma engenharia complexa que demanda coragem, paciência e, às vezes, uma boa dose de aventura.
Estou fazendo a minha parte, espero que vocês façam as suas, sem se furtar da imaginação. Se comeremos os frutos não sei, mas deixo sementes no pomar. Os pássaros, como vocês sabem, plantam longe as grandes florestas, fecundando territórios inóspitos que se transformam em massas verdes de esperança. Eles não perguntam quem aproveitará a sombra gloriosa da figueira, mas sabem que as raízes da árvore-mãe abraçam a Terra como pensamentos íntimos que dividimos com poucos. Que os sonhos floresçam nesta manhã de júbilos e desejos. Beijos.
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