CÉLIA MUSILLI
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de dezembro de 2007
Feliz Ano Novo 
Nesta época pensamos no próximo ano como quem estréia uma roupa nova e o ideal é impecável. Mas depois as costuras se abrem, as cores desbotam, os tecidos encolhem e o imaginado ''cai na real'', como se diz por aí. Ao criar o sentido de tempo, o homem engendrou os sonhos: o que não foi possível hoje, seria amanhã. O que não fizemos este ano, faremos no próximo. Mas esta fantasia também se dissipa no mundo contemporâneo onde a velocidade cria novos sentidos de tempo e espaço. Nós, que no fundo não deixamos de ser um bando de primatas, sentimos o impacto desta mudança de forma individual e coletiva.
A questão é tão séria que filósofos, como o francês Paul Virilio, se debruçam sobre as questões do tempo e do espaço, analisando-as sob as influências das novas tecnologias como a internet e outros meios de comunicação de massa. É incrível como pudemos estar no Iraque no exato momento em que a guerra começou. A distância foi dissolvida e a territorialidade se transformou em fronteira que só existe nos mapas. Na verdade, tudo agora é muito próximo e muito veloz. Virilio vê nisso uma ''catástrofe antropológica'', porque o bando perdeu referências e, com isso, se debate para compreender, afinal, o que é preciso vivenciar e o que é preciso superar no menor prazo possível.
Pensem: numa época em que a comunicação e a informação correm rapidamente, todos querem superar o tempo também no cotidiano. Não há mais espaço para a contemplação, para o que demanda paciência, questionamento e, neste jogo, a velocidade respinga também sobre nossas relações pessoais e existenciais. Não há mais tempo para grandes amores, para grandes impasses, para grandes perdas. Parceiros são substituídos facilmente pelas ''próximas atrações'' e isto cria a noção falsa de uma vida sob anestesia, em que tudo passa depressa, como numa película. Não há mais tempo para processos de conquista ou de dor. Tudo se torna difuso, descartável, substituível e os grandes romances, os grandes filmes, as grandes experiências são trocadas por episódios mais curtos e frívolos dos quais somos protagonistas. Tudo é pensado para que haja ''superação'' e o tempo inexista. Juventude e velhice, por exemplo, coexistem de uma forma nunca antes aprendida. E se há vantagens em pensar tudo de modo novo e fresco, há também desvantagens quando a experiência passa a valer quase nada. Ser velho virou sinônimo de ultrapassado, ter idade, estigma de algo a ser deposto. Assim como ter rugas é antiestético e cabelos brancos um cartão de visitas a ser depreciado.
Então todos correm, mas é para a academia, onde o tempo é dedicado para que o corpo ''renda'', como se fôssemos uma empresa. Mais exercícios, mais esforços, mais pesos. Tudo orquestrado para que a idéia de um novo ''empreendimento'' respingue também sobre nossas relações. Se o corpo ''rende mais'', o sexo ''rende mais'' e a noção falsa do encontro de uma fonte da ''eterna juventude'' dissipa de vez a noção do tempo em relação à idade. Já não existe ontem nem amanhã. E quando se perde o processo, se perde a história. O resultado são as bonecas disformes, de rostos esticados e nádegas caídas, porque em algum espaço do corpo o tempo desponta de forma implacável.
Mas o tempo é bem mais que um borrão a ser apagado, uma marca a ser superada, um limite a ser vencido. Aspirava-se também ao futuro quando se aspira à maturidade e à velhice sem receios. Diante de tantas mudanças, não é à toa que aquele bando de macacos que quebrava cocos, intrigado com as cascas há alguns milênios, evoluiu para tipos humanos que às vezes parecem pouco à vontade com as próprias brincadeiras, perdidos em relação aos valores do passado e do presente, da juventude e da velhice, da sabedoria e do anacronismo. Tudo funciona em alta velocidade e, nesta viagem, somos passageiros sem paradas, nômades sem noções de espaço, corpos sem noção de tempo. Criam-se, a cada segundo, demandas que fazem o novo já nascer velho. Ainda assim é emocionante desejar Feliz Ano Novo, acreditando que os sonhos caberão na realidade sem que seja necessário alcançar o ''rendimento máximo''. Em época de ''presentes'', nada como exercitar ''futuros'' com imensa calma e uma sábia paz de espírito.
Sonhar com o que virá ainda é o único modo de enxergar o mundo sem o tédio de declarar a cada instante: ''Já vi este filme''. Porque deve existir por aí alguma novidade, um afeto que dura, um lirismo que vale a poesia de um ciclo com começo, meio e fim. Que 2008 amplie nossa capacidade de enxergar sem pressa as pequenas e as grandes maravilhas. A vida é degustação.
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