Novela das oito dá ‘banho de realidade’ na telinha

  Nunca liguei para novela e já passei vexame quando os amigos comentavam a trama das oito e eu me comportava como um E.T. que nunca sabia se a heroína tinha matado, morrido ou passava bem, obrigada. De uns tempos para cá, deixo a internet à noite para espiar os dramas que se desenrolam na outra telinha. Mesmo porque o mundo real anda pior do que a ficção, eu não agüento mais ler notícia ruim nos sites a cada minuto. É o que eu chamo de ‘‘tragédia on-line’’, porque se antes engolíamos as barbáries de manhã, lendo os jornais, hoje o circo dos horrores é abastecido o dia inteiro, já que temos notícias em tempo real. ‘‘Ônibus invade ponto no Rio e fere 10.’’ ‘‘Adolescente morre em rebelião.’’ E os aviões - ah! nem é bom falar dos aviões! Tenho medo de atrair a desgraça e um deles perder altura aqui perto de casa. Por isso, em vez de ficar na janela, assisto a novela.
  ‘‘Duas Caras’’, de Aguinaldo Silva, tem chamado minha atenção pelos temas que vem abordando, com o talento peculiar do autor para tocar nas feridas de um jeito original. Mostrando, por exemplo, o preconceito atrás das aparências ‘‘politicamente corretas.’’ Há alguns anos, uma revolução na linguagem corrigiu os vícios de chamar negro de ‘‘crioulo’’, ‘‘negão’’, ‘‘neguinho’’ e outras palavras correlatas e sempre pejorativas. Aí descobriram a América – ou melhor, a África – e cunharam a expressão ‘‘afro-descendente’’, que julgaram adequada para referenciar a origem de uma raça. No entanto, usar as expressões corretas não significa extirpar o preconceito. E isto fica evidente quando a personagem Gioconda, interpretada por Marília Pêra, abre a boca em ‘‘Duas Caras’’ para falar do namorado ‘‘afro-descendente’’ da filha Júlia , vivida por Débora Falabella. Confesso que caí no riso quando ouvi, pela primeira vez, madame pronunciar a palavra ‘‘afro-descendente’’ bem baixinho, com medo que os vizinhos escutem, que os amigos saibam que sua filha apaixonou-se por um negro. No caso, o talentoso Lázaro Ramos que interpreta Evilásio e valoriza todas as tramas de que participa.
  Entre as veteranas, Marília Pêra está perfeita no papel de madame, que ela compõe com todos os salamaleques, em detalhes, como uma autêntica personagem que estudou no Sacre Coeur e ainda não caiu na real nem percebeu que o mundo mudou. Gioconda é magistralmente anacrônica, fora de época, parada no tempo. Usa e abusa de expressões ‘‘finas’’como: ‘‘As pessoas perderam a delicadeza’’, sem perceber que a delicadeza hoje repousa em outras instâncias, consuma-se, por exemplo, na aceitação e convivência com outras raças, costumes e sem barreiras de classes. Delicado, madame, é não ter preconceito.
  O que Aguinaldo Silva faz é mais do que tocar nas feridas. Ele enfia o dedo naquilo que a ‘‘sociedade de bem’’ se recusa a enxergar. Outra abordagem é mostrar a barra pesada que os homossexuais enfrentam quando a família e os conhecidos os discriminam e eles são obrigados a encarar sozinhos a sociedade, sem apoio e sem esconder sua opção sexual. É corajoso o modo como o autor da novela aborda a relação de Bernardinho (Thiago Mendonça) com a família que não o aceita mas pode até abrir concessões, desde que ele se comporte como o ‘‘empregadinho da casa’’, lavando, passando, cozinhando. Enfim, fazendo tudo aquilo que os irmãos ‘‘machos’’ e a madrasta preguiçosa se recusam a fazer. Até sair de casa, Bernardinho sentiu na pele a condição do ‘‘gay útil’’. E com um pouco de perspicácia podemos notar que os homossexuais são mesmo estigmatizados a ponto de vivenciarem estereótipos profissionais, ou seja, são considerados bons costureiros, bons cabeleireiros, bons decoradores. Mas se forem para o exército sofrem preconceito. Se pilotarem avião, viverão sob suspeita. Se forem médicos têm que deixar bem claro que não seduzem pacientes nos consultórios. Vivemos as contradições da sociedade que aceita tudo, desde que seja ‘‘em seus devidos lugares’’. O que não deixa ser hipocrisia.
  A novela ainda contrapõe o ambiente das favelas e dos condomínios de luxo, mostra o Rio de Janeiro que não é só o Corcovado ou o calçadão de Copacabana. Troca a bossa nova pelo samba-enredo. Mostra o Rio pobre dos subúrbios, das ruas sujas e estreitas, do povo sofrido, dos camelôs suando a camisa para sobreviver na grande cidade. ‘‘Duas Caras’’ pode ser considerada um banho de realidade na telinha. Não era sem tempo. Porque ninguém agüentava mais o ‘‘glamour’’ escandaloso da novela das oito, onde quase sempre todos são bonitos e ricos. Por sinal, os grã-finos da novela pulam miudinho. A anacrônica Gioconda, com sua ‘‘finesse’’ fora de época, a autoritária Branca (Suzana Vieira) dando as cartas em seu mundinho de araque: a universidade particular, onde pipocam conflitos que reproduzem a realidade. O melhor de tudo, é que as personagens nos fazem rir, porque suas ‘‘estampas’’ são o espelho da mediocridade que tenta se equilibrar num mundo em que as barreiras vão caindo na marra ou por exaustão. E nem vou falar da peruca loura que puseram em Suzana Vieira: ela se transformou na Barbie dos trópicos, cópia decadente e crítica de tudo o que as ‘‘chiques’’ brasileiras gostariam de ser, mas não são. Como se diz por aí, ‘‘é uísque do Paraguai.’’

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