‘Quando elas caem em si, já namoraram farsantes ou menores abandonados’

  Quando escrevi o texto ‘‘Homens inteligentes, mulheres insensatas’’ não faltaram questionamentos. Como? E elas? Também não escolhem mal? Não dão bola fora? Não caem de quatro por cafajestes, por tipos que não têm nada a ver?’’
  Devido às queixas, resolvi refrescar a memória e contar os casos das mulheres inteligentes e suas escolhas insensatas. Porque, na verdade, elas também pisam no tomate. Quando caem em si já namoraram farsantes, casados ou ‘‘menores abandonados’’ que chegam de mochila no apê e vão ficando um, dois, três dias. Há casos que duram anos, com reincidência permitida pela dona da casa. Mas engano mesmo elas cometem quando namoram tipos que, na melhor das hipóteses, parecem saídos de uma comédia. Na pior, de um filme trash.
  Vamos ao caso de S. Ela é morena e tem 41 anos. Mas continua linda como se tivesse 19. Inteligente, criativa, ganha a vida como publicitária, mas seu hobby é cozinhar e ficar na internet. Claro que os chats fazem parte da sua vida e, no ano passado, conheceu um carioca com quem ficou teclando meses. Tecla daqui, tecla dali e o moço enviou uma única foto. ‘‘Passável!’’ – eu disse, porque só abro a boca quando me pedem opinião. Conheço S., se dou o contra ela se apaixona perdidamente e fica sentida com as minhas críticas. Então deixo que ela teça elogios à nova conquista: ‘‘Sabe, ele não é bonito, mas tem um vozeirão e um humor imbatível!’’. Logo percebi que a figura não era grande coisa, mas fiquei calada. Afinal, já tinha visto S. caída por tipos piores e...de voz fina.
  Um dia S. anunciou: ‘‘Vou para o Rio conhecer meu amor!’’. Eu disse ‘‘ai’’ bem baixinho e completei em voz alta: ‘‘Boa viagem. Vai quando?’’ Ela disse: ‘‘Hoje à noite’’, eu percebi que já estava tudo perdido.
  Embarcou num ônibus executivo, 18 horas de viagem, feliz da vida, como se fosse a Paris pela Air France. Comprou roupa, fez as unhas, acabou com o pote de creme para o corpo. Escolheu lingerie, fez bronzeamento artificial, mudou o perfume, arrumou as malas e partiu. Pouco mais de 36 horas depois, ela me liga. Atendi contente: ‘‘Oi, está no Rio?’’ Ela respondeu triste: ‘‘Não, estou em casa.’’ Eu disse: ‘‘Já???’’ Ela desatou a chorar e com a voz entrecortada contou o drama da hora: ‘‘Sabe, ele foi me buscar na rodoviária. Mas era tão feio, tão feio que não tive coragem de ficar e precisei arrumar uma desculpa esfarrapada.’’ ‘‘Como você fez?’’, perguntei maternal. E ela: ‘‘Bem, durante a viagem eu liguei para o celular dele de madrugada e atendeu uma mulher. Logo vi que era casado e não havia me contado. Até aí tudo bem, nem tudo é perfeito. Mas casado e com aquela cara, não dava.’’ ‘‘Como ele é?’’, continuei maternal, quase pegando a infeliz no colo. ‘‘Ele parece um sapo, literalmente. Aquela foto que você considerou passável é photoshop, arte do demônio, ilusão de ótica e ainda por cima foi grosseiro. Agarrou meu braço e me sacudiu quando eu disse que ia embora.’’ E continuou a chorar.
  Perguntei com toda psicologia: ‘‘E como você fez para cair fora?’’ Ela disse: ‘‘Chorei, chorei muito. Disse que ele havia me enganado, que liguei de madrugada e uma mulher atendeu. Que assim descobri que ele era casado e isso mudava tudo.’’ Balbuciei: ‘‘Ééé... e muda mesmo?’’ Ela: ‘‘Claro que não, estou pouco me lixando pro estado civil da criatura. Mas ele parecia gosmento, andava como se estivesse pulando e, de perto, o vozeirão não era grave. Eu parava e ouvia ‘‘coach... coach’’..., enquanto ele gritava comigo.’’ Eu desatei a rir, apesar da minha amiga parecer fragilizada.
  Meses depois pensei que S. estivesse curada. Após a decepção e o bate e volta ao Rio, em pouco mais de 36 horas, achei que ela não faria bobagem tão cedo. Para minha surpresa, o ‘‘sapo’’ enviou e-mails para ela, fez umas ligações românticas, ‘‘coach...coach...’’, e S. saiu do trauma como se tivesse feito análise com Freud.
  No fim de semana, ela estava teclando com ele outra vez. Ele dizia fuiii, ela dizia fiiica. Mas afirma que nunca mais volta à Cidade Maravilhosa e, muito menos, quer passear na Lagoa, só que mantém o faz-de-conta com o príncipe virtual. Pensei: a escolha insensata não é continuar apenas iludida. Isto a gente compreende. O problema é que ela não se enxerga. Não vê que é linda, inteligente, criativa. Além da assombração virtual, ela arranjou na cidade um namorado baixinho – eu diria ‘‘sapinho’’ –, que de vez em quando desaparece como se tivesse a cara do Brad Pritt e pudesse fazer um charme. Minha amiga sofre, mas diz que na cama o homem é um ‘‘Deus’’. Fico bem quieta, se dou o contra, S. jura de pés juntos que encontrou Apolo. Aff...vou levar um despacho até o Mar Mediterrâneo. Para ver se a Bela Adormecida acorda!

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