CÉLIA MUSILLI
'Sabem lá o que é pintar o Monte Fuji num grão de arroz? Pois é, meninos, eu vi'
Tive um médico japonês que dizia: ''Sua psique é oriental.'' Sabia que, para ele, aquilo representava um elogio, mas ficava pensando porque eu haveria de ter psique oriental se sou brasileira, neta de italianos e sofro de uma inquietação que me faz perder o sono. Depois percebi que minha dose razoável de paciência, em certas situações, fazia o médico dizer aquilo, ligando sua cultura ao meu modo de ser.
Afinal, não existe ninguém mais paciente que os japoneses. Eles passam horas em atividades que exigem dedicação. Origami, kirigami, ikebana e haikai são com eles mesmos. Já viram como escrevem bonito, transformando um fato corriqueiro em poesia?
velho tanque
uma rã salta
barulho d'água
(Bashô)
Mas dêem tesoura e papel para um brasileiro, sem ''psique oriental.'' Num minuto ele fura as folhas, se não furar o olho. Exagero? Que nada. DNA é coisa séria e parece moldado para que cada povo caiba em seu país de modo que nada sobre e nada falte. A criatividade fica na medida certa, o que não significa um juízo de valor.
Então no Japão, formado por ilhas pequenas, a população aprendeu a utilizar seus espaços nos mínimos detalhes e tudo é feito com precisão quase sobrenatural. Observem: os menores aparelhos eletrônicos do mundo são deles, que ainda adoram chips, câmeras fotográficas, desenho animado, artes marciais, mangá e pintura em grão de arroz. Sabem lá o que é pintar o Monte Fuji num grão de arroz? Pois é, meninos, eu vi. E a paisagem ainda por cima tinha neve, céu e passarinhos, naquele estilo ''limpo'' do oriente, porque, se fosse no ocidente, só caberia uma parte da Torre Eiffel. E se fosse na Bahia - ah! se fosse na Bahia! - caberia meio acarajé, nenhuma baiana e não haveria nem sinal de Caymmi. Mas embaixo haveria um letreiro bem grande: ''Bem-vindos à Bahia de Todos os Santos, Terra de Nosso Senhor do Bonfim.'' Porque baiano, vocês sabem, só acrescenta. O que seria de nós sem Gal, Gil e Caetano, não é mesmo?
Pra ser sincera, apesar da minha reconhecida ''psique oriental'', eu tenho orgulho do Brasil, da sua exuberância, do seu exagero, da sua criatividade que nem cabe na forma e derrama feito bolo de tapioca quando a gente erra a medida. E nossos estados então? Jesus, quanta terra. Você começa a atravessar o Mato Grosso ali pelo meio-dia, no fim da tarde sabe que rodou 500 quilômetros e tem mais 2 mil pela frente. E dá-lhe pasto, estrada ruim, reserva, rio, aldeia, índio e quando você pergunta: ''Já chegamos ao Pará?'' Te respondem com aquele sotaque: ''Que nada, pra 'cegá' você tem que subir a Serra do Cachimbo.'' E juro que é o maior cachimbo do mundo. Então você pára para comer um dourado. E o peixão vem inteiro, da cauda à boca parece o Sambódromo, a Linha Vermelha, o Maracanã com escamas. É muito grande e ainda vem cheio de farofa, o suficiente para matar a fome de 20 caboclos, daqueles que repetem o prato.
Por isso eu digo, o Brasil é o país do exagero, do rebolado, do tempero. Se você pede um sashimi vem fininho, caprichado, bonitinho e tem que comer com rashi, o que exige paciência, jeito, técnica, enfim...psique oriental.
Como Londrina é um caldeirão de culturas, com um enorme contingente de japoneses, aprendi por aqui mesmo as artes e manhas de cozinhar udon, tomar chá, falar arigatô, comprar missô no Mercadão do Shangrilá e dizer 'Bom dia' para o Seu Furuta. Só não aprendi a pintar em grão de arroz.
Mas se me botam numa roda de samba, também levanto poeira, porque baixa o Brasil em mim. Saravá! Salve o Senhor do Bonfim! E assim, com dupla personalidade ou dupla cidadania, vou girando os eixos da minha psique. Ora pro oriente, ora pro ocidente. Só não tem médico que dê jeito nos parafusos do meio. Estes, segundo meu pai que era um exímio relojoeiro, teriam que vir da Suíça, onde tudo é mais caro. Então, prefiro procurar Dona Nenê que tem psique baiana, não cobra nada e, ainda por cima, me benze com água de cheiro. Afff...
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