CÉLIA MUSILLI - Vamos proteger as ovelhas ou os lobos?
Abro os Classificados e admiro aqueles que trabalham com produtos acabados. Mais que admiração, sinto uma ponta de inveja, embora seja um sentimento feio. Mas no meu caso, significa apenas que às vezes desejo ser funileira, mecânica, costureira, mototaxista, a ''Vilma dos bolos'' ou qualquer figura desta cidade que recebe encomendas, as faz com capricho, entrega, recebe o pagamento e dorme em paz até o dia seguinte.
Mas cismei de trabalhar com idéias e palavras. Mesmo quando não quero, acompanho os noticiários ou ''leio o mundo'', sentindo o impulso de fazer comentários. E comentários nunca são produtos acabados. Ao contrário, geram discussões, novos argumentos, acordos e discordâncias. Enfim, multiplicam-se, porque a opinião é matéria-prima sem fim.
Gosto de viver num mundo eclético, cheio de variáveis e pessoas que pensam diferente. Acho ricos os debates, considero saudáveis as diferenças, até mesmo as broncas, porque não há forma democrática de viver a não ser aceitando a diversidade.
Mas desde que aquele arcebispo de Olinda e Recife ameaçou com excomunhão os médicos que fizeram o aborto de uma menina de nove anos, vítima de abuso sexual do padrasto, perdi o sossego. Confesso que fiquei indignada com os argumentos da Igreja e dos seus fiéis em relação ao aborto feito numa criança de nove anos, vítima de violência doméstica das mais insanas e monstruosas. Invocam o direito à vida, o Direito Canônico, a condenação a qualquer forma de aborto, colocando na mesma panela casos que merecem um olhar diferenciado.
Nada entendo de Direito Canônico, mas as noções básicas do direito humano carrego comigo, tentando ser justa. Então pergunto: se a gravidez da garota não fosse interrompida, não estaríamos cometendo o crime de fazê-la arcar com as consequências dos atos de um padrasto insano? Os que argumentam que ''duas vidas foram ceifadas'', porque a menina estava grávida de gêmeos, não percebem que manter uma gravidez, fruto de violência, significa também ''ceifar'' a vida de uma criança já nascida e indefesa para decidir sobre seu próprio corpo, até mesmo quando foi violentada?
Senhores, o que quero dizer, apesar do Direito Caduco e Canônico, é que não é possível no mundo contemporâneo considerar todo aborto sob o mesmo ponto de vista. Há aqueles praticados para que se salve a vida da mãe - como no caso desta menina. Há aqueles que são permitidos quando a gravidez é fruto de estupro - que é o caso desta menina. Há aqueles em que simplesmente a mulher decide sobre seu próprio corpo - e este é um direito de uma espécie que tem livre arbítrio.
A religião e o direito, para não se tornarem míopes, devem prever alguma flexibilidade, algum entendimento além daquele moldado a ferro e fogo. Mais que isso, o caso da menina de Recife requer humanismo. Já pensaram na dor desta mãe precoce se fosse obrigada a ter filhos e se lembrar do padrasto covarde a cada vez que os amamentasse? Que tipo de laço ou de afeto podem surgir de uma relação que nasce da violência? Por que obrigar uma criança a conviver com uma lembrança que deve lhe provocar horror?
E vem o arcebispo ameaçando os médicos com a excomunhão. Então pergunto: em algum momento ele pensou em excomungar o padrasto? Ou seria mais cúmplice da monstruosidade do que da reparação de um ato criminoso? E vem os fiéis com discursos ensaiados sobre ''o direito à vida''. Acaso consideram-se os donos da verdade?
Na contrapartida, depois da ameaça do arcebispo, há um movimento espontâneo de pedidos de excomunhão à Igreja. Circula na Internet até mesmo uma Carta-Modelo de Pedido de Excomunhão, que pode ser encontrada em vários sites. Trata-se de um movimento não só de irreverência, trata-se de um ''troco'' que inverte as relações de poder.
A lição que fica deste episódio é muito clara: queremos uma religião contemporânea para um mundo contemporâneo. Uma religião que condene os lobos e não as ovelhas. Uma religião que tenha um olhar amoroso sobre a condição emocional de uma menina que nem sequer pode ser filha, quem dirá ser mãe.
Mas, como eu ia dizendo, queria ser funileira, costureira, mototaxista. Mas cismei de trabalhar com idéias e palavras. Este produto nunca está acabado, faz coçar nossa consciência até o fim. E sou fiel ao meu ofício.
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