Esta para mim vai ser a eleição do ''não voto''. Porque no primeiro turno eu viajei e, pela primeira vez, não exerci meu direito de cidadã. Fora do jogo e sem fazer parte de nenhuma torcida, não ouvi rádio, dispensei a TV, deixei de comer as unhas, arrancar os cabelos e acompanhar as vantagens ou desvantagens daqueles que pudessem ser meus candidatos.
Confesso que foi um primeiro turno meio esquisito, como se eu tivesse mudado pro Equador, vendo estrangeiros disputando votos. Até me lembrei dos plantões de domingo no jornal, quando deixava minha editoria diária e ficava emprestada para outros espaços, como o noticiário internacional, acompanhando, sem grande afinidade, as eleições do Suriname ou do Congo para depois criar uma manchete sem convicção. Afinal, quem conhece de perto os presidentes Ronald Venetiaan ou Joseph Kabila?
Eleição é que nem futebol. Ou veste-se a camisa ou tanto faz. E a sensação de tanto faz, nestas eleições, me lembra a daquele primeiro domingão de jogo, depois que o Corinthians caiu para a segunda divisão, em que pouco me importavam as pelejas em campo.
Agora chega o segundo turno e dispenso o voto útil, porque não sou mulher de utilidades. Aliás, adoro uns ''inutensílios'' como a poesia - salve Paulo Leminski! - , sapatos bonitos que não me servem mais e andar de ônibus pela cidade sem descer em ponto algum. Porque andar sem destino dá uma sensação inenarrável de liberdade que eu não troco por roteiros obrigatórios.
Há muito tempo esfriei os ânimos com a política e, nos últimos dias, cruzando o Calçadão, recusei panfletos, jornais, ''santinhos'' do pau oco e, mentalmente, fiz as contas impossíveis de quanto desperdício existe nas promessas eleitorais que consomem toneladas de papel e a paciência dos eleitores. Enquanto o lema dos candidatos é ''Trabalho e Honestidade!'', o bordão do eleitor só pode ser ''Me engana que eu gosto''. Porque os políticos, como os pecadores, só juram de pés juntos na hora de ''ir para o vinagre'', como dizia meu pai quando via alguém com a água batendo naquela região em que a gente nada ou...afunda.
O que me aborrece em eleição é a mentira, o engôdo, o Conto da Carochinha que somos obrigados a engolir. Cada candidato tem uma plataforma mais bonita que a outra: Educação, Saúde, Urbanização, Saneamento saindo de pranchetas mágicas que depois se tornam ''planos invisíveis''. Até parece espiritismo, mas Freud deve explicar porque tanta vontade e tanto desejo evaporam depois que termina o pleito e os homens cruzam os braços, lembrando-se de cumprir parte das promessas só quando vai chegando outra eleição e eles, com a água pelo pescoço, têm que nadar rapidinho. Nestas ocasiões, avenidas ficam prontas da noite para o dia, inauguram-se cemitérios, constroem-se hospitais, dando a impressão que a eleição é a gasolina azul dos partidos, porque, no resto do tempo, todos parecem movidos a carvão.
Então, num momento em que as pessoas juram hoje de pés juntos, e amanhã deletam suas promessas, prefiro nem votar para não passar recibo de boba. E se me assombram com a necessidade de ser ''útil'' pergunto: ''Útil pra quem, cara pálida?'' Não quero mais dos mesmos, por isso me abstenho. Votar sem convicção é como namorar pra não sentir solidão e depois descobrir que levamos um ''imbróglio'' pra casa. Na falta de fé, não acendo velas nem ao santo nem ao capeta. Afinal, quem põe a mão no fogo por Ronald Venetiaan ou Joseph Kabila? Me poupem, pirata por pirata prefiro votar no Paraguai.

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