CELIA MUSILLI - Um sopro de vida
Andei pensando porque compro rosas e elas não se abrem. Ficam estáticas, tristes, feito botões congelados, colhidos nas floriculturas. Antes viajam como flores modernas: às vezes vêm de longe, num caminhão com ar refrigerado, vêm da Holambra, que me lembra a Holanda, onde também brotam cravos, violetas e tulipas. Um jardim em série, que depois viaja sobre eixos e rodas para qualquer lugar do Brasil. São flores tipo exportação.
Mas por que será que agora vivem em greve estas rosas? Já pensei em perguntar aos botânicos, aos jardineiros, aos especialistas em assuntos nada corriqueiros: por que não se abrem as rosas? Elas me intrigam, fechadas como casas desabitadas, dessas que nem tem jardim ou, se tem, não são cuidados pelos próprios donos que contratam profissionais com máquina de cortar grama, uma vez por mês, para zelar das plantas.
Acho que hoje as rosas sofrem de indiferença. Antes, cada casa tinha o seu jardim, quase sempre com um grande roseiral. Flores espalhadas pelos corredores sombreados, nos espaços ensolarados, escondidas entre as árvores do quintal. Havia rosas simples e de todas as cores. Brancas como devem ser as do anjo-da-guarda, amarelas como as que enfeitavam as salas, vermelhas como as rosinhas caipiras que brotavam em qualquer canto.
Sempre gostei do perfume das rosas, elas me lembram cheiro de mulher, de mãe, de Nossa Senhora das Graças. No céu e na terra, acho que não existe quem não goste das rosas, mas agora elas andam bem tristes, pendendo em grandes maços deprimidos.
Semana passada, investi num buquê de oito flores. Levei para casa, cortei os talos com delicada tesourinha como quem corta a unha de um filho, coloquei todas em água fresca, pareciam contentes, pensei : ''Desta vez elas abrem.'' Mas que nada, continuaram por quatro, cinco dias na sala, fechadas feito um segredo, depois morreram sem dizer um ai.
O que será que sentem as rosas? Que perderam espaço nos jardins domésticos? Que viraram mercadorias embrulhadas em celofane? Que sua beleza compete com laços e fitas? Que são requeridas às dúzias em festas e casamentos, mas não têm atenção no cotidiano, permanecendo sem poda e sem ânimo no esquecimento?
Lamento que as rosas não falem, como ensina a canção de Cartola. Mas se também não se mexem, não desabrocham e morrem feito um projeto de jardim suspenso acho que o mundo fica mais triste. Gostava quando as roseiras explodiam em cachos. Aquelas flores pendendo nas varandas, invadindo as casas com seu espírito e o seu perfume. Como viviam bem as rosas, ensolaradas, às vezes macetadas pela bola de um menino, desfolhadas pelo vento e renascendo teimosamente a cada primavera.
Está certo que não tinham a nobreza das flores cultivadas, das plantas geneticamente modificadas, das flores que nascem dos cruzamentos onde se apuram as variedades para que fiquem resistentes a doenças e aos insetos.
Mas também não acho graça em roseiras muito ''projetadas'', me lembram estas moças com peitos de silicone, florescendo artificialmente em bandos sem vivacidade, de beleza construída, sem os defeitos da espécie e suas sutis diferenças.
De tanto querer saber o que acontece com as rosas, perguntei a uma florista japonesa porque, afinal, elas não se abrem. Queria aprender a arte que as faz desabrochar. Insisti que deveria haver um modo, deveria haver um jeito, quem sabe um segredo. Ela me olhou bem séria e, convencida de que eu realmente gostava das flores, me ensinou um truque que só se passa de mãe para filha. Ela disse: ''Sopre as rosas, sopre os botões fechados que eles se abrem.'' Voltei para casa como quem aprendeu a mágica, como quem obteve a revelação. Ajeitei os botões no vaso, antes cortei cada caule como quem corta unha de criança, escolhi a água mais fresca, o canto mais claro e comecei a soprar as rosas. Liricamente elas se abriram, soltaram uma, duas, três pétalas. Fui repetindo o gesto durante a semana de nossa convivência e assim ganhei um buquê inteirinho aberto. Que felicidade! Reconquistar o perfume da infância, a visão do paraíso. Não eram mais indiferentes as minhas rosas. Descobri que as flores, como as pessoas, às vezes só precisam de um sopro de vida. Por isso soprem, soprem as rosas. Isto faz toda a diferença.
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