CELIA MUSILLI - Um corpo que 'cai'
Quando este texto for publicado talvez a morte da menina Isabella Nardoni já tenha sido elucidada. Como todos sabem, ela foi atirada do 6º andar de um prédio em São Paulo. Como todos sabem, ela foi vítima de asfixia antes de ser jogada. Como todos sabem, há outros sinais de violência em seu corpo. Como todos sabem, um inquérito que parece interminável apura a causa real de sua morte e, principalmente, tenta concluir quem é o assassino.
O mais chocante num drama inserido na realidade é que nem sempre o culpado é punido, ao contrário dos filmes onde uma polícia esperta e uma Justiça de olhos abertos conseguem dar o desfecho correto aos casos. Desta vez, mais um corpo 'cai' de um edifício e, infelizmente, a história não é fictícia nem o suspense é de Hitchcock.
Além do trauma da morte violenta, o País é sacudido por uma onda de comoção trazida pelo fato que ganha os jornais, as TVs, os sites. Ficou impossível, nos últimos dias, não ver estampado em toda parte o rosto sorridente de Isabella, imagem da inocência que clama por justiça e atinge pais, mães, madrastas, tios e avós de forma inconsolável. De alguma forma, fomos todos atingidos pelo drama. É que Isabella poderia ser nossa filha ou sobrinha. A parceirinha que adorava andar no carrinho do supermercado, a garota que fazia bonito nas apresentações da escola, a menina de 5 anos que sonhava com a festa de aniversário que seria comemorado no dia 18. Só que Isabella partiu antes da festa, deixando o País de luto.
O que chama a atenção nesta tragédia, além da infinita tristeza que a morte violenta de uma criança provoca, é ver que as imagens da menina, sua vida curta, a relação dos pais, os conflitos da madrasta, transformaram-se em mais um espetáculo, fórmula malhada de tragédia-show explorada até as últimas consequências. Que o fato é notícia ninguém duvida, mas o clamor por justiça escapa de corações e mentes às vezes de forma estúpida e antiética.
Apresentadores de TV, travestidos de ''promotores de plantão'', já disparavam acusações bem antes do inquérito ser concluído. Ao show somaram-se as vozes das multidões gritando para o pai e a madrasta de Isabella: ''Assassinos, assassinos!''. Está certo que todo mundo deseja a verdade e mais que isso, a justiça. Porém, as coberturas incendiárias e a catarse popular atingem outros alvos além da busca pela verdade: atingem altos índices no Ibope e isto transforma o interesse pela tragédia em fato especulativo que mexe de modo indisfarçável com as neuroses coletivas e individuais, mas não redime uma sociedade doentia.
Durante a semana, psicanalistas, jornalistas e educadores abordaram de todas as formas o drama que sacudiu o País. Nas suas opiniões transparece uma evidência que dói quase tanto quanto o crime: a sociedade contemporânea apresenta falhas que parecem irrecuperáveis no seu sistema social, familiar e, principalmente, psicológico. Dói perceber que apesar de todos os avanços científicos e tecnológicos, ainda nos comportamos como a população insana da Idade Média, aquela que clamava pela morte dos réus incitando os carrascos: ''Matem, matem!''.
''Assassinos!'' é o grito que ecoa pelos séculos como a expiação máxima da culpa de todos nós. Porque no cotidiano, bem antes que se instalem as tragédias, somos às vezes os pais e parentes omissos que não protegem as crianças, os vizinhos indiferentes aos dramas que se desenrolam bem ali ao lado, os casais que não se perdoam depois de uma separação criando para os filhos um ambiente pesado, conflituoso, cenário de inevitáveis tragédias. Importa mais uma vez refletir sobre as causas que matam Isabellas, Terezas e Marias no silêncio e na omissão dos dias em que preferimos não encarar de frente os próprios atos. Não estou dizendo que não se deva procurar fazer justiça, mas antes que ''fazer justiça'' seja necessidade premente de uma sociedade que adoece por preconceito, frustração ou omissão, precisamos procurar a cura. Os crimes são a doença fatal do comportamento humano, o ato irreversível, a vergonha dos que se ligam ao Mal e também dos que se dizem do Bem. Pessoas ditas ''normais'' praticam crimes todos os dias e seu ato constitui não só a tragédia individual como a tragédia humana.
A morte de Isabella merece uma reflexão maior do que gritar: ''Assassinos!''. Requer um minucioso exame de como tratamos o próximo e os muito próximos, para que neuroses sociais e familiares não cresçam a ponto de transbordar em mais uma tragédia a ser comida pelos olhos por ávidos espectadores. Isso é muito pouco e profundamente triste.
Esta reflexão não deve servir para atenuar o crime, que se encontrem sim os assassinos de Isabella e queira Deus que fatos assim não sejam tão comuns nem morram nos autos sem solução, depois da catarse da sociedade-espetáculo. A propósito de Isabella, lembro-me aqui em Londrina de outra bela, Estela, que em outubro de 2000 caiu ou foi jogada de um edifício. Atrás das cortinas escondem-se sorrateiras, até hoje, as consciências e a impunidade.
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