CÉLIA MUSILLI - Quero votar em Cartola
Política é também a arte da construção de imagens. Quanto mais popular o candidato, mais votos recebe. E bota popularidade nisto. Na época das eleições, os candidatos mudam de nome ou reforçam o codinome, vão de encontro ao eleitor com o que tem de mais simpático, original, bem-humorado. Às vezes beiram ao ridículo e embora a vida também seja feita de gafes, sandices e bandeiras mal deflagradas, a gente fica pensando: ''Puxa, mas pra aparecer precisa mesmo tudo isso?''
Bem, pela lógica da mídia, se a Mulher Melancia não mostrasse a melancia, seria ninguém. Ela suporta a chacota, o sarro, os maus tratos, mas ganha a fama e leva a grana, sacudindo a exuberância da fruta, antes que o ''monumento'' desabe.
No embate eleitoral, os ''homens melancia'' estão todos por aí, balançando seus atributos, valendo-se dos apelidos para passar a imagem que pode render votos em segundos na televisão. São todos ''confiáveis'', ''honestos'', ''devotados à causa pública'', ainda que a ladainha enjoe e os históricos não sejam exemplos de virtude.
Quando precisam, mentem sem se envergonhar, falam de obras que nunca fizeram e outras que juram fazer, como heróis da nação. Querem ganhar o eleitor como um vizinho, um parente, um amigo e apostam na intimidade. Fica mais fácil acreditar no Zé do Pátio - aquele que resolvia no pátio da secretaria de obras de Cuiabá as questões de sua pasta - do que no José Carlos Junqueira de Araújo. Porque com um nome destes, o cara parece um aristocrata e o povo desconfia de gente esnobe.
Além disso, apelido pode dar sorte nas urnas. Tivemos JK, que não me deixa mentir, e Lula que ganhou a presidência duas vezes. Tem coisa mais simpática do que um apelido sob medida? Parece coisa de primo, gente. Existem também os azarões como Mussolini, o ''Duce'', e o caso de Zé Dirceu que agora é chamado Bin Laden, porque ele mandava e os companheiros é que ''explodiam''.
Mas vamos à lista dos ''homens melancia'', para quem os fins justificam os meios. Eles estão em toda parte, do Oiapoque ao Chuí, são como pragas da soja, morre uma, surge outra e não há Roundup que dê jeito. São como os gafanhotos bíblicos, aqueles que sempre aparecem para comer em bando. São como a Mulher Melancia, que não se envergonha nem cansa de balançar seu marketing.
Para não ferir suscetibilidades, vamos fugir das cercanias. Nada de citar candidatos de Londrina, Curitiba, Maringá. Quero distância de Cornélio Procópio, Bandeirantes, Andirá. Dispenso até Sarandi. Vamos viajar porque o Brasil é grande e o ridículo existe em toda parte.
A Câmara de Cuiabá já tem o Leve Levi, Luiz Poção e o Pente Fino. Goiás, um candidato chamado Zebrinha, que nunca se elegeu. Assim como Rondônia teve o Espeto que tentou, cutucou, mas não venceu. Nos programas eleitorais, pelo País afora, já vi o Flanelinha do Ayrton Senna, O Chato e o Touro Bandido. Querem mais? Na Bahia, o notório Antônio Carlos Magalhães foi chamado de Toninho Malvadeza, mas continuou mandando do berço ao túmulo, prova de que a política não é coisa para os bons nem para os justos. E ainda pedem que a gente acredite neles.
Apelido por apelido, prefiro os sambistas aos políticos. Então me deixem votar em Monarco, Jair do Cavaquinho, Casquinha, Cartola. São mais autênticos e não estão nem estiveram no ''vale tudo'' como certos tipos que me lembram a Mulher Melancia. Aquele ''monumento'' que, mais dia, menos dia...desaba.
[email protected]





