Trabalhar demais não é bom. Não somos formigas. Temos nossa ''porção cigarra'' que foi sendo engolida pela civilização e, por pura obrigação, dançamos a dança da vida moderna, aceitando o estresse como ''religião'', somos ''workholics'' na marra.
Antes que pensem que gosto da vida mansa, esclareço que adoro o que faço, minha profissão, e sou do tipo que pode trabalhar até doze horas por dia. Agora mesmo, às 00h50 do dia 29 de novembro, sentei-me aqui para escrever a crônica e o dia puxado me levou a refletir que não somos formigas, somos também cigarras e me deu vontade de cantar, embora todos os vizinhos durmam.
A fábula de La Fontaine sempre me fez brincar com a idéia que opõe os preguiçosos aos trabalhadores, mas acho mesmo que os tipos divertidos, ''desencanados'', que encontram tempo e disposição para ir ao bar, fazer pão, passear no parque, ler livros e ir ao cinema, pelo menos duas vezes por semana, vivem melhor.
Admiro os hedonistas, palavra que no dicionário também é definida como ''a Filosofia em que toda bem-aventurança humana se resolve no prazer.'' E antes que pensem numa forma egoísta de obter satisfação, digo que meu conceito de hedonismo se aplica àquelas situações ou pessoas para as quais as delícias da vida têm um importante espaço no cotidiano, transformando seu modo de interpretar o mundo.
Quem não gosta de rir? De apreciar coisas bonitas, se distrair com bobagens abrindo um leque de pequenos e grandes prazeres que se estende do gosto de tomar sorvete com calda até as férias na praia? Ah! O sol na pele, aquele cheiro de mar, o dia entregue ao ''dolce far niente'' que nos transforma em pessoas mais felizes em poucos dias do ano.
Penso às vezes em inverter o calendário. Que mundo incrível não nasceria da experiência de ter seis domingos e só uma segunda-feira. Sem terça, quarta, quinta. Vocês sabem, a gente se cansa até para contar os dias trabalhados, eles não acabam nunca.
Que mundo incrível não nasceria da possibilidade, ainda que passageira, de ter 11 meses de férias e só um de trabalho pesado, com despertador às 7 horas, uma hora de almoço, filhos pra buscar e pegar na escola. Penso assim porque gosto muito de inverter a lógica do mundo, permitir-me delirar com as coisas viradas do avesso porque, ''do direito'', o cotidiano anda cansativo e sem aventura.
Dizem por aí, que nascemos para nos aventurar e que uma boa dose de despojamento serve até para as grandes descobertas.
Você aí, já foi a África? Ou pelo menos viu hoje um beija-flor no jardim? Contou para as crianças a história dos tigres? Vai desenrolar a rede como um índio devotado ao descanso? Vai jogar bola sonhando ser Kaká? Espiar a lua sem fazer cálculos? Sem lembrar da conta do telefone? Sem pensar que a vida é cronometrada por um pequeno tirano chamado relógio quando, na verdade, o tempo é um ''deus'' que existe , sobretudo, para nos lembrar que somos passageiros?
Pois é, e se estamos de passagem, melhor é pensar nas coisas boas da vida e isto inclui o trabalho como construção, mas não como uma amarra que nos escraviza e nos maltrata. Também fomos feitos para nos alegrar, caso contrário a nossa anatomia não teria inventado a musculatura do sorriso. E fomos feitos também para descansar, caso contrário nunca sentiríamos sono nem teríamos uma coluna flexível que não deixa a menor dúvida de que não somos bichos mecânicos e patéticos feito os robôs.
Criados para sentir cheiros, enxergar paisagens, afagar quem amamos, passamos mais da metade da vida negando tudo isso. Criando rugas, perdendo os cabelos, estufando a barriga em nome de uma ''seriedade'' que nos empurra para uma vida sem graça, à espera sempre dos domingos, quando, finalmente, somos mais felizes.
Então, respeitando o trabalho que faz de nós seres construtivos, podemos consagrar nossos dias a tarefas necessárias à sobrevivência material. Mas sem esquecer que o coração é a sede do espírito e quando ele se alegra, pulsa pela beleza, vibra de prazer, encontramos, enfim, nossa vocação humana da bem-aventurança.
Que os domingos se multipliquem em nossas vidas e que possamos aumentar nosso tempo de cigarras. Cantem! A felicidade é uma arte que também precisa do ócio.

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