Como eu gosto das palavras, entre um texto e outro reviro o dicionário à procura de expressões que me surpreendem e divertem. Como não rir ao descobrir que debuxar é desenhar; lazeirento é esfomeado e lebréia é chuvisco.
Mas pelo amor de Deus, que palavrinhas feias. Só servem mesmo para demonstrar meu espanto. Não usaria um ''debuxar'' à toa num texto nem que me pagassem. Afinal, tenho pena de obrigar o leitor a engolir uma coisa dessas com cafezinho, pão e manteiga.
Fico pensando nos criadores das palavras cruzadas, uns tipos cheios de paciência e imaginação, conhecedores do vocabulário e que se esmeram para colocar a gente na maior sinuca. Resolver as cruzadas é sair para uma verdadeira batalha com as expressões.
São eles que nos fazem pensar que ''capricho repentino'' é veneta. E que ''maldição lançada com violência'' é anátema. Cruzes! Vou lançar um anátema no Bush, pra ver se pega.
Mas eles também me enganam, quando propõem que eu saiba de cara o que é ''devastador da Amazônia''. Eu penso logo em caboclo ou coreano, mas descubro que é simplesmente ''desmatador'', depois de virar o jornal de cabeça pra baixo. Porque, dependendo do tempo disponível, não sou muito persistente, viro e desviro a página, só não consigo deixar as cruzadas pela metade. É frustrante como largar texto sem fim ou romance no ar.
Com esta mania de pesquisar palavras, me deparei com as expressões bíblicas e descobri dicionários especialmente desenvolvidos para compreender termos milenares que sobrevivem naquele contexto de páginas finíssimas e cheias de palavras capazes de dar nó no cérebro dos mortais.
Lendo a Bíblia, dá pra imaginar que ''leviatã'' é uma serpente veloz? Que ''darda'' significa pérola da sabedoria? E que ''jaacã'' é torcedor? Pois é. Faz tempo que Lula não diz uma ''darda''. E não dá pra chamar ninguém de ''jaacã'' da Seleção Brasileira.
Ainda no âmbito das religiões, cada crença tem seu rol de palavras que nada significam para os leigos, mas fazem o maior sentido para os fiéis.
Os hinduístas sabem perfeitamente o que é ''darma'', ou seja, os preceitos morais da doutrina. E ''mandala'', círculo mágico.
No Brasil, os umbandistas falam em ''cavalo'' e, neste caso, a palavra não diz respeito àquele bicho grande e peludo que sai trotando por aí. Enquanto os espíritas kardecistas aplicam ''passes'' e a gente sabe que isso não tem nada a ver com futebol.
Com esta paixão pelas palavras, já elegi as que acho lindas e outras pelas quais tenho verdadeira ojeriza. Aliás, ojeriza não, que é uma expressão muito feia. Melhor dizer que não gosto delas.
Palavras que eu gosto: sonho, luminescência, lirismo, sonoridade, chuva, maçã, luz, mel, aroma e por aí vai. São milhares.
Palavras que detesto: camisola, sarjeta, bucho, carótida, vesgo, visgo, urna, pernilongo, patroa. Também são milhares.
Para terminar, não custa lembrar que lebracho é o macho da lebre, apanágio é atributo, assomar é subir e cacharolete é mistura de bebidas alcoólicas. Pensou naquele porre aí? Pois é. Agora chega que ninguém é de ferro. Tome seu cafezinho em paz. Às vezes pergunto porque inventaram certas palavras. Passaríamos bem sem elas. E, por favor, nunca me chamem de patroa.

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