CÉLIA MUSILLI - O sonho vão da imortalidade
Se fosse para continuar, meu Deus...
eu tomaria cada gota de felicidade como o mel que pacientemente a abelha cria, voando do pólen à colméia, na disciplina dos dias que chegam com o cheiro da manhã onde só os insetos andam com patinhas de veludo. Nesta delicadeza, mandaria dizer a cada ser da Terra que é preciso pisar leve para que não se acorde os passarinhos que guardam sob as asas os filhotes e a esperança de que há vida, meu amor, há vida, ainda que o vale da morte circunde a montanha em cujo cume as nuvens indicam que há um Criador, depois do céu, com sua face misteriosa que ninguém nunca viu, mas respeita sem conhecer.
Se fosse para continuar, meu Deus...
eu tomaria cada gota de felicidade levando-a pela mão como a mãe que atravessa o filho, cuidando para que não lhe fuja a única verdade possível do amor sobre a Terra, onde mãe e filho celebram a vida enquanto é cedo e as tempestades ainda não se anunciam como um fim em si mesmas, descarregando nuvens grossas em gotas que secam ao sopro do pai, enxugando o ferimento feito sem querer sobre os espinhos. Porque as crianças não sabem, meu Deus, não sabem, onde espreita o perigo e, na sua inocência, a sombra da morte é só um sonho ruim do qual acordam gritando para ter a certeza de que sua voz é mais forte do que os desígnios.
Se fosse para continuar, meu Deus...
eu tomaria cada gota de felicidade oferecida em vida a estes dias santificados, em que estamos todos juntos sob a proteção do triunfo, onde não chega a infelicidade, nem a dor, nem a angústia. Aqui todos nos olhamos entre sorrisos, abençoando cada segundo em que a comunhão de nossas almas e de nossos corpos paira sobre a Terra, sem pensar que a morte um dia nos recolherá como uma loba repentina que não ama, não pergunta, não perdoa e nos transforma em ovelhas que vão para o sacrifício cuja intenção não compreendemos.
Afinal, Senhor, nascemos, crescemos e nos multiplicamos e, quando enfim nos separamos, esta paisagem interior cria uma névoa de isolamento e nossos espíritos mergulham no vazio. Ali, cada gota de felicidade não pode ser retomada porque cada um de nós já teve sua dose no cálice da vida, que não pode ser preenchido mais de uma vez por alegrias porque dele também escorrem lágrimas, como o cristal do pensamento que se purifica dos medos.
E assim, transbordamos para a morte como almas de saudades perenes e consoladas. Quem nos atravessa é um barqueiro, do qual não me atrevo a dizer nem o nome.
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