CÉLIA MUSILLI - O homem triste
Na sexta-feira os homens saem para beber, quando se fecha o círculo dos compromissos. Mas seu descanso parece colado à realidade, numa estranha e incompatível vizinhança. João afoga seus problemas, eu bebo à inquietação do mundo.
Os homens me parecem muito solitários quando abrem garrafas e se sentam ali, longe das suas mulheres, das naturezas mortas, das telas sem vivacidade, dos cotidianos que repetem assuntos, pondo-se a pensar sabe-se lá no quê. O coração dos homens é sempre tão misterioso e desejos reclusos passeiam entre a sala e o quarto, seis dias por semana, tomando a aragem dos botecos e das varandas apenas quando chega a sexta-feira.
É verdade que nem todos parecem angustiados. Alguns chegam em bando como pássaros barulhentos, na algazarra da comemoração ou do alívio. Homens felizes sempre fazem barulho, um vozerio, uma mistura de sons que lembra as torcidas nos estádios, os gritos de guerra simulando a força de uma pequena vitória quando nem tudo foi perdido. Afinal, mais uma semana ficou para trás, mais uma parte da agenda foi desfolhada, alguns sonhos desfeitos, outros satisfeitos, os compromissos inadiáveis e os adiáveis encontram a pausa na sexta-feira.
É neste dia que eles desapertam os colarinhos e afrouxam os botões. No boteco do Silva, do Pedro, da bisteca na brasa, do uísque on the rocks, da cerveja estupidamente gelada servida por loiras oníricas, embora quem repita a dose seja mesmo o garçom. Eles ficam ali sem gravatas, como meninos que retomam uma liberdade perdida, embora alguns pareçam estranhamente tristes. Como se toda alegria fosse apenas o contato daqueles copos com mãos que se agarram à idéia de que mais uma semana se passou e chegou a hora mágica de sair do sufoco. Ainda que isto dure o tempo de esvaziar uma, duas, três, garrafas, até o último gole antecipar o gosto de outra ressaca ou da frustração da procura.
Suas mulheres repetem: ''Meu marido precisa descansar.'' E sonham viagens para as quais eles nunca têm tempo porque, no fundo, perderam o gosto pelo mundo, o prazer de dirigir automóveis, montar cavalos, construir navios. Suas mulheres nem sabem mais de onde vêm seus guerreiros, de que caminhos, de que jogos de bola, de que sonhos deixados nos terrenos baldios.
A visão de alguns homens domesticados e tristes me põe a pensar que faz falta à vida deles pessoas que os estimulem a uma liberdade de aventuras imaginárias ou fantasias de filmes. Uma mulher que soe como verso ou música. Ou quem sabe outra mudança. O ''chute no balde'' do bom emprego. A travessia da rua. O desafio de procurar esmeraldas. Um movimento que os agite como garrafa, fazendo soltar-se do fundo algum desejo esquecido, alguma mensagem marítima, um bilhete deixado debaixo da porta.
Que surpreendente seria se, nas tardes solitárias, alguma coisa acontecesse a estes homens que os fizesse sentir mais vivos, comunicando-se como gente de carne e osso, não como senhores que se plantam nos botecos feito estátuas. Seus movimentos são curtos, trazendo o copo à boca e depois à mesa. Um ritual de pequenos gestos, sem admiração nem espanto.
No meio do bando de pássaros, alguns destes homens são a imagem da desistência. Contemplam a rua com olhos apertados, expressão ausente, depois voltam para casa como um estranho rebanho. Talvez por isso, quando terminam a garrafa, chamam o garçom e jogam uns trocados na mesa, com um desprezo que se assemelha à descrença. Não há sinais de viagens nem de navios. Como são tristes os homens domesticados e seus desejos esquecidos. João afoga seus problemas, eu bebo à inquietação do mundo. (Texto inspirado em poema de Mário Quintana)
[email protected]





