CÉLIA MUSILLI - O Brasil em campo
Na semana passada eu fiquei quietinha. Preferi esperar a poeira baixar. Mas aquela delegação que foi a Zurique, negociar a Copa de 2014 para o Brasil, parecia a Liga do Mal. Tinha até o escritor Paulo Coelho e a ministra do Turismo Martha Suplicy lado a lado: o bruxo e a bruxa.
No Brasil, atualmente, personalidades brincam de ser o que não são mais. Paulo Coelho, que estreou bem com ''O Diário de um Mago'', hoje está longe de ser aquela figura inspirada, alternativo como seu parceiro de música: Raul Seixas. Virou um bruxo vip, mais afeito a aparecer na revista Caras do que na Planeta, onde fazia coro com a turma que vê discos voadores. Fez a fama e deitou na cama.
Martha Suplicy, a sexóloga de língua presa e idéias arejadas, fez carreira política. Antes tivesse deixado a bola para o ex-marido: Eduardo Suplicy, ele é muito melhor na área. Mas Martha estava lá com a delegação, como ''boa brasileira'', logo ela, a ministra ''aérea'' do ''relaxa e goza''. Relaxar de que jeito, Martha? Queríamos ser melhor representados. Mas, até nisso, ''o país de chuteiras'' minguou, virou ''o país de salto alto''. E embora conte com uma Seleção estelar, nosso futebol é anêmico se comparado ao que se viu no passado.
Os dirigentes do futebol e os dirigentes do País se esforçaram, na semana passada, para resgatar o clima de ''Eu Te Amo, meu Brasil''. Instalaram telões em várias cidades na tentativa de criar, desde já, o ambiente de Copa nas ruas. As tentativas falharam. Um público abaixo do esperado ficou atento aos movimentos da delegação.
O País ainda adora futebol, mas talvez esteja amadurecendo e já não entra de cabeça nos lances marqueteiros que fizeram do futebol o estandarte dos generais nos anos 70. Não que, àquela época, o nosso futebol não merecesse as glórias: afinal, era esplêndido. Inenarrável tentar reproduzir o que Rivelino, Tostão, Gerson, Pelé e outros craques fizeram em campo. Ah! A Copa de 70. Ah! O México! Ah! O Brasil onde o futebol era a linguagem que unificava o povo! Sim, porque o futebol, nos anos 70, era o bálsamo que deslizava sobre as nossas feridas. Cada gol era um sopro em nossos machucados, no país onde, por bem pouco, ''prendiam e arrebentavam''.
Então, com o Brasil em campo - único espaço livre para os gritos de desafogo, alegria e glória - o povo ia à desforra. Hoje, o esporte ainda contagia, mas de um modo diferente. A diferença é nítida e também política. Vivemos anos mais democráticos em que podemos demonstrar nosso desagrado. Mas o que me surpreende é que não usamos bem a liberdade, a expressão, a palavra. Nos contentamos ainda com um grito de ''gooolll'', de vez em quando. E, até mesmo quando se trata de futebol, olhamos o País de forma anêmica, apática, embora os esforços sejam para criar um clima de euforia desde já, sete anos antes da esperada Copa.
Os tempos mudaram, senhores dirigentes, e não adianta mais encher as ruas de telões. Talvez porque a corrupção no futebol e na política, a cartolagem pública, não nos anime a fazer parte da ''corrente pra frente''. Desta vez, para vibrar, precisamos de mais transparência, contas bem feitas e explicadas à nação quando construírem os estádios e os recursos públicos e privados começarem a desaguar como um rio, que não queremos que seja mais um mar de vergonha depois da festa. Mas sinto falta de vozes para deixar isto bem claro. Nos acostumaram mal ao silêncio, nos amordaçaram.
Além do mais, com um futebol burocrático, de campeonatos de ''pontos corridos'', as disputas perderam um pouco da graça, talvez da raça. Quem não sabia, antes daquele jogo do Campeonato Brasileiro, que o São Paulo seria pentacampeão? Pois é, antes da partida nem discuti aqui em casa, onde há três são-paulinos e só uma corinthiana. Ai meu Deus, confessei meu pecado. Um pecado pequeno, é verdade, no País anêmico onde na política e no campo o que não falta é soberba e salto alto. Pra frente, Brasil! Mas, desta vez, de cabeça erguida e olho no olho.
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