CÉLIA MUSILLI - O amor é um texto
Na internet os amores voltam a ser feitos de palavras. Se o meio é moderno, a prática de seduzir por correspondência elimina distâncias e dois corações solitários podem se aproximar ainda que um viva no Oiapoque e outro no Chuí. Tenho amigos que se casaram depois de namorar pela internet. O tête-à-tête é fundamental para quem leva a coisa a sério, mas para navegar pelas marés do romantismo basta um PC, um mouse, um simples toque digital. Nos notebooks a tecla tapping sofre com os arroubos da paixão. Batemos pesado quando o coração quase sai pela boca, com o outro escrevendo coisinhas que, faladas, seriam inimagináveis. Por acaso alguém teria coragem, em sã consciência, de se autodenominar ''Gata Manhosa'' ou ''Cafajeste Gostoso'' se estivessem frente a frente? Claro que não. Na real seriam apenas Paulo e Patrícia, mas nos chats, com ou sem testemunhas, permitem-se tantos apelidos couberem na imaginação.
Uma das vantagens da paixão virtual é eliminar defeitos. Ninguém tem caspa, ninguém transpira, ninguém mastiga de boca aberta. E quem acha que tudo não passa de mentirinha, deve se lembrar que o bê-a-bá do amor é sempre um sonho, um faz-de-conta que nos tira do chão, dando à vida um novo colorido, um falso brilhante de inspirado valor sentimental. Quem quiser se entupir de realidade que leia os jornais, de preferência as páginas sangrentas de polícia ou as de hipocrisia política, com relatos que nos deixam de cabelo em pé.
Para sonhar com o amor melhor outras palavras, sentidos fagueiros, sutilezas que escorrem pelas linhas, enchendo o cotidiano de uma coisa ''que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei porque...''
Ah! Que modo fantástico de resgatar a poesia nos proporciona o Google. Basta um clique na pesquisa. Pessoas e Drummonds despertam no calor das letras vivas. Um ''control C'' e um ''control V'' nos aproximam dos amados, nunca vistos, sempre imaginados e merecedores dos melhores elogios. Vocês já viram um ''Gordinho Elegante'' ou uma ''Feiosa Desfrutável''? Cara a cara os tipos pareceriam piegas, personagens de folhetim, mas no mundo virtual os lero-leros ganham sabor de aventura e os maiores absurdos passam batidos.
No fundo, nos apaixonamos pelas criaturas que inventamos, a paixão é um texto, todo amor, no início, não passa mesmo de idealização. E se os hiper-realistas vêm com as ladainhas tentando impedir os sonhadores, digo que no passado as cartas tinham a função dos e-mails, um pouco mais lentas, mais saudosas, levadas por carteiros de cidade em cidade, de mão em mão, mas sempre com a função romântica de refrescar a memória do amor, seladas com endereços reais e com desvantagem de ninguém poder sair de cena dizendo simplesmente: ''Fuiii...''
Pela facilidade e a velocidade, talvez as paixões virtuais sejam menos traumáticas. Como disse uma vez , não estamos em tempos de grandes amores, grandes filmes, nobres enredos. A modernidade nos impele a transes passageiros e nem por isso menos intensos. Aparecer ou desaparecer num clique tem a magia da sedução instantânea, como a faísca dos raios. A tempestade tropical vista pelo prisma romântico, o aguaceiro do amor sobre nossas cabeças, tomando os pensamentos como a correnteza condenada a desaguar nos mares, sem saída, sem salva-vidas.
Amor virtual não foi feito para durar. Quando dura já passou para a lente da realidade, para o zoom do cotidiano que transforma paixões em amizade, convivência, fraternidade, em fogo brando que já não faz arder os corações. Mas se você quer lenha na fogueira, fagulha de São João irrompendo o espaço infinito da incerteza, tenha um romance virtual. Nunca os textos foram tão sedutores e arrisco dizer que escritores anônimos cultivam na Internet simplesmente o hábito de criar palavras como quem cria um grande amor, de mentirinha. Uma novela mexicana que eleva a megabytes nossa latina emoção. Por que não?
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