Prefiro lembrar de Jesus menino, correndo pela Galiléia quando nem ele mesmo sabia que sua presença ganharia o mundo. Ele só compreendeu a força da palavra ali pelos 12 anos, quando saiu de casa como fazem os adolescentes em busca da aventura, da experiência, do fogo da rebeldia. Dizem que por esta época foi estudar com os mestres. Eu acredito.
  Voltaria perto dos 30 anos, quando se consolidam as verdades e o homem está pronto para enfrentar seu caminho. Ele era um homem-deus que veio para provocar mudanças. Então transformou água em vinho, desespero em esperança, morte em vida e seus milagres assombraram o mundo. Ele não se assombrava com nada. Nem mesmo com o açoite com o qual desejaram corrigir sua rota quando já pregava a revolução. Era insubordinado por desígnio da sua natureza divina. Querem coisa mais forte do que isso? Um pai chega e diz: ‘Vai, filho, correr o risco dos mundos! E transformar as mentes, corações e espíritos com a chama que arde, a inquietude que sangra, para iluminar as consciências!’.
Visto assim, o cristianismo tem muita grandeza e muita coragem.
  Mas hoje vim para lembrar dele menino, desde o nascimento seguido de perto por uma estrela, encarnando a luz na noite fria da Galiléia. Então o vejo alimentado pela mãe da doçura, aquecido pela palha seca, visitado por reis que o saudaram com mirra e ouro, atravessando os desertos da solidão humana para encontrar o oásis da fé em estado puro.
  Ele chegou ao mundo ungido pelo pai que tudo vê, tudo sabe e entrega o filho ao destino incomum de transformar os homens, essas duras criaturas que têm também a face da intriga, do ódio, do racismo e da indiferença que nos fazem enxotar dos semáforos a infância pobre, mal suportando o incômodo da sua cara suja.
  Então, Senhor, em nome da inocência e em seu próprio nome, repita aos fariseus, sempre que possível, que antes de cruzar os templos para alcançar o céu é preciso reconhecer na terra a luz de cada criatura. Não adianta rezar sem identificar esta pequena verdade. Não adianta ter fé sem acreditar no próximo. Não adianta fazer promessas quando não cumprimos a nossa parte. Deus é mistério e se encontra em lugares inimagináveis. Ontem mesmo o vi, correndo descalço pela avenida da perdição e da ingenuidade. Era franzino como um animal sem dono, atravessava a madrugada sem ninguém se responsabilizar por ele. O nome do menino era Jesus. Jesus da Silva, um outro filho de Deus.

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