CÉLIA MUSILLI - Jardim das delícias
A notícia circulou num site de curiosidades e trata-se de uma aventura ''absolutamente natural''. Assim pode ser chamado o passeio proposto pelo casal inglês Ian e Barbara Pollard. Em alguns dias do ano, eles abrem o jardim da sua casa para os visitantes passearem entre as flores sem roupa. Já imaginaram? Pés descalços e sensações múltiplas. Uma árvore aqui, um arbusto ali, o toque de uma pétala, a dureza de um espinho. Tudo à flor da pele, porque fomos feitos para viver nus. Mas séculos de civilização nos vestiram dos pés à cabeça. Hoje o nu é notícia. Milhares de pessoas vivem às custas da sua beleza ou da sua feiúra. Há um vasto campo na publicidade para empregar os corpos, sejam quais forem as medidas.
Mas prefiro pensar o nu como condição de prazer, diversão ou protesto. Nos jardins do casal inglês, 80 por cento dos visitantes chegam e vão deixando a roupa num cantinho, para passear entre as flores. Outros preferem se despir no caminho. Um vestido aqui, uma calça ali, a lingerie num cactos, o sutiã que o vento levou. Não dá uma incrível sensação de liberdade? Sim, porque nus nascemos, esperneando antes que nos colocassem fraldas e meias. Depois perdemos para sempre a inocência e, quando a recuperamos, num passeio ou no nosso próprio ambiente, temos que superar limites, incluindo a vergonha, para retornar à nossa ancestral identidade humana, demasiadamente humana.
Quem já não chegou em casa tirando a blusa apertada, a cueca incômoda, a calcinha cuja pior lembrança é a marca do elástico no quadril? Pois então, abaixo as rendas e viva liberdade! Porque os naturistas estão cheios de razão quando decretam o fim da prisão das roupas. Mas confesso que para mim a nudez combina com natureza, praias, jardins. Entre os naturistas, talvez não me sentisse bem nas funções do cotidiano. Não me imagino, numa cidade nudista, num supermercado, a barriga roçando o carrinho de compras. Ou então num churrasco, entre amigos, sorriso amarelo e peitos à mostra, pedindo sem graça: ''Me passa a salada''. O cotidiano já me cobriu de pudores. Mas ficar nu na praia é outro ''cartão-postal''. Recupera-se a alegria de um yanomami. E sonha-se com um jardim onde passearíamos felizes como um lulu sem dono.
Pobre civilização contemporânea. Agora só andamos nus num exercício fugaz de liberdade ou como ato de protesto. Pelados ''sem causa'', nunca mais. Perdemos a inocência quando nos expulsaram do paraíso. Mas, de vez em quando, sonhamos com aquele ambiente idílico, onde nossos corpos desconheciam a censura, entregues à vida, através da epiderme e seus mil e um sentidos. Sol e vento a eriçar pêlos e peles. A ciranda da liberdade perdida.
Sobre as escolhas
Recado aos pessimistas: ''Eu sei que a realidade é horrível, mas é o único lugar onde posso encontrar um bom filé.'' (Woody Allen)
Recado aos otimistas: ''Tudo passa. Chuva passa, tempestade passa, até furacão passa. Difícil é saber o que sobra.'' (Millôr Fernandes)
Quanto a mim, não compartilho da opinião dos pessimistas, isto deixa a realidade pior do que já é. Tampouco faço coro com os otimistas, que fabricam alegria como se a vida fosse um livro de auto-ajuda. São coisas diferentes. É preciso vivenciar cada momento, sem disfarces. Compreendendo os recados e nuances da tristeza ou da felicidade.
Todos os dias passamos por experiências e somos levados a fazer escolhas, sem conhecer o futuro. A tendência é ficar com o que parece ''lógico'', fugindo das revoluções. Mas justamente aquilo que parece difícil, ou até impossível, é o que nos faz sentir mais vivos. E o que seria da vida sem os riscos? Por isso eu mergulho. Sou uma escafandrista até o fim. Muitas vezes, no fundo, vejo estrelas do mar que jamais se revelariam num mundo de superfícies.
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