CÉLIA MUSILLI - Homens inteligentes, escolhas insensatas
Alguns homens caem de quatro por mulheres que não têm nada a ver com eles. Fico impressionada quando noto alguns entrando em fria numa velocidade espantosa e sem rede de proteção. Detalhe: são quase todos reincidentes.
Eles se sobressaem na escolha de mulheres chatas, controladoras e com faniquitos próprios do ''tipo feminino padrão''. Aquelas mesmas que fazem caras e bocas, não enxergam vida além do shopping e só tem um objetivo: arrumar um marido com ''status'' para sustentá-las.
Entre meus amigos, existe um cara brilhante que conhece o mundo, tem livros publicados e um senso de humor muito crítico. Ele não é bonito, mas é agradável e vive mal acompanhado, pelo menos no meu ponto de vista. Explico: ele tem uma queda especial por ''peruas'' e há um ano caiu de amores por uma mocinha atraente mas que, por algum distúrbio psicológico obscuro, tem o dom de tornar a vida do meu amigo um inferno.
Três meses depois de começar um namoro incandescente, a dona já dava sinais de que, definitivamente, J. não era o homem da sua vida. Mas foi ficando com ele como se tivesse nas mãos um troféu, culto, sensível e que logo se sobressai num bate-papo. Ele parece enfeitiçado pela mulher que lembra uma daquelas garotas que levantam as torcidas nos campeonatos de futebol americano, sempre de short curtinho e carregando um celular com pompom.
O encanto da figura termina por aí. Ela não decorou nenhum script além de bancar a mulher fatal em festas e bares, colocando meu amigo em situações pra lá de constrangedoras. Pior, faz de conta que é ''ciumenta'', embora não morra de amores por ele, e costuma dar blitze em agendas e celulares, tentando proibi-lo de ter amizade com mulheres. Por sinal, considera todas nós, amigas de J. desde o tempo da faculdade, inimigas em potencial, presunçosas, esnobes, mal-intencionadas porque podemos alertá-lo sobre o engodo de viver com uma mulher fútil. Mal sabe ela que os alertas de nada valem. J. não enxerga além do shortinho e do pompom. Prova de que a ''inteligência emocional'' não tem nada a ver com pós-graduação.
Foi com alívio que, há uns três meses, vimos nosso amigo ter um rasgo de consciência. Disse que andava cheio daquela mulher que arma barracos, liga seis vezes por dia, já tinha ameaçado pôr fogo na sua agenda, pisoteado seus CDs durante uma briga e se recusado a receber uma amiga dele no apê porque desconfiava que conversariam coisas que ela não entenderia, ''só para demonstrarem que ela é burra.''
Então, no dia em que J. chegou ao bar e disse que o relacionamento tinha terminado, nos esforçamos para não dar pulinhos de alegria, tocar a Marcha do Triunfo, soltar rojões ou comemorar com uma garrafa de vinho. Aguentamos firmes e continuamos tomando cerveja enquanto ele lamentava o fim do namoro, embora se declarasse consciente de que não tinha perdido grande coisa. E todos repetimos em coro: ''É, você não perdeu grande coisa!'', como fiéis respondendo à ladainha.
A alegria durou pouco. Dia desses fomos a um churrasco na casa de uma amiga. J. também ia e até comentamos que bom seria encontrá-lo sem o ''encosto'', depois que ele passou meses no papel de ''viúvo da perua''. Mas quase caímos da cadeira quando ele chegou tarde da noite de mãos dadas com a pomba-gira. Sim, eles reataram o namoro. E, apesar dos 30 graus de temperatura, a moça apareceu de vestidinho curto com gola de pele e maquiada como Penélope Cruz em dia de Oscar. Chegou exuberante com o celular de J. na mão e explicando que era preciso dar blitz na agenda telefônica do ''meu bem porque tem mulher que não se enxerga.'' Engolimos a seco o chavão ''carinhoso''. Fazer o que se o J. gosta? Mas a galera veio abaixo quando, dez minutos depois, a moça afundou o salto agulha no gramado e se desequilibrou enquanto gritava histérica: ''Benhê!'' , deixando cair a bolsinha Prada e uma asa de frango.
A cena foi a chave pra turma dizer em coro: ''Segura a perua, Jorge.'' Enquanto outros repetiam: ''Deixa voar, deixa voar!'' Agora ele não quer ver a nossa cara, não atende nossas ligações e nunca mais foi ao bar. Chegamos à conclusão que o ''encosto'' é forte demais e já contratamos um pai-de-santo que fala ioruba que é pra moça não entender bulhufas quando a convidarmos para a ''sessão de abre-caminho'' que estamos preparando para ela e o Jorge serem felizes para sempre. A cada reza do macumbeiro ela só vai ter que repetir: glu-glu-glu. Explicamos a ela que isso também é ioruba e que a lua-de-mel, por nossa conta, será em Miami. Aff...
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