Papai Noel está gordo e seu saco de presentes cada vez mais pesado. Sinal dos tempos. O bom velhinho não faz dieta, refestela-se com tender e lombo, castanhas e vinho, que vi guardados nas dobras da sua roupa.
Papai Noel tira muitas cartas da manga, ou melhor, do seu saco de presentes: notebooks e iPhones, TVs e bicicletas. A impressão é que passa pelas lojas do planeta, saindo bem antes da sua terra: o Pólo Norte, onde as renas foram substituídas por carros, movidos à velha gasolina. O mundo não mudou, mas Papai Noel mudou e sua terra já tem paisagens derretidas.
Bem longe do gelo derretido, em paisagens tropicais, vi Papai Noel entrando nas lojas. Percebi que já não aguenta os gritos e os apelos dos vendedores: ''Gaste mais!'' ''Consuma!'' E Papai Noel foi lotando - para não dizer enchendo - o saco de presentes. Sentia uma canseira danada, pesado daquele jeito e arrastando os sonhos de consumo de casa em casa, ainda por cima enfrentando os insatisfeitos: ''Não era bem isso que eu queria!'' disse a criança mimada, que tem o apoio da mãe mimada que pensa, afinal, que este aniversário é seu.
Cristo ficou lá no presepinho, imagem eterna da humildade, recebendo mirra, incenso e ouro, dando bem pouca importância a todos estes presentes, já que sua mensagem ultrapassou as dádivas conhecidas, ensinando-nos a buscar aquilo que o dinheiro não compra.
Mas prevaleceram os bens e o consumo, embora a crise financeira tenha dado uma sacudida em quem tem na moeda a sua razão de viver. Dizem por aí que os investidores estão de cabelos brancos como Papai Noel e engordam de desgosto.
Não se trata de velhice precoce, trata-se da frustração de ver descongelada, como a paisagem dos pólos, seus sonhos de abundância. A riqueza se desfaz com muita facilidade. Basta um sopro, um movimento imprevisto, uma especulação que falha. A riqueza é frágil, embora não pareça, e é preciso ter outros sonhos além de escalar montanhas de dinheiro para sentir-se um alpinista social bem-sucedido.
Às vezes me pergunto onde foram parar os outros ''bens'' da humanidade: amor e fraternidade. Alguém sabe dizer, afinal, o que significa a tal bem-aventurança? Expressão antiga como os velhos pinheirinhos de Natal, onde a gente esperava a visita de Papai Noel, sua presença mágica. Mas ele perdeu a magia, agora sai pelas lojas anunciando as novidades e poucas crianças ainda acreditam que aquele senhor seja mais do que um messias do Natal dos novos tempos: ''Compre, compre. Consuma!'' Disse com voz rouca neste último Natal.
Não se sabe em que momento a magia se perdeu. Mas dizem que o bispo Nicolau, que inspirou a figura de Papai Noel aos 280 d.C., vestia uma roupa marrom que foi substituída pela vermelha e branca em 1881, ano em que a Coca-Cola criou novo figurino para Papai Noel, imprimindo imagem publicitária a uma velha tradição. Coincidência ou não, Papai Noel passou a ganhar a peso e a colocar em sacos presentes cada vez mais caros para pessoas sempre insatisfeitas. Elas querem iPhones de última geração, mas nem Papai Noel consegue acompanhar a velocidade do consumo e só diz ''Ho! Ho! Ho!'' com sotaque de quem vem do Pólo Norte e anda muito cansado desta maratona sem amor.

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