As formigas cavaram um grande buraco e fizeram ninho debaixo de uma árvore no jardim. A vida desta árvore é um mistério. Nenhuma outra espécie se adaptou à minha calçada. Logo eu que adoro plantas, fiz tentativas frustradas com duas acácias e um ipê no mesmo lugar. Nenhum vingou. Talvez as mudas não se desenvolvessem por acúmulo de água no local, o que apodrece as raízes profundas.

Sem sorte com ipês e acácias, que se afogaram naquele lago subterrâneo, um dia me deparei com uma espirradeira de pequeno porte, que explode em flores cor-de-rosa como se fosse mesmo um interminável espirro botânico. Foi paixão à primeira vista.

Retirei a muda de uma casa no fim da rua e plantei teimosamente. Algo me dizia que, daquela vez, o verde venceria o excesso de água e não deu outra. Não levou duas semanas para a espirradeira ganhar força e crescer energicamente, superando obstáculos que as outras plantas não superaram. Hoje sua floração é uma espécie de cartão-postal do bairro. Seus galhos pendem com botões de um rosa tão delicado quanto as nuvens no fim do dia. Mas como nada é perfeito, as formigas foram morar à sua sombra, certas de que encontraram o paraíso. Elas ainda não sabem, mas a guardiã da pequena árvore pensa em providências drásticas. Conhecendo a natureza, sei do que são capazes os insetos, piores, em muitos casos, do que os bichos grandes.

Não declaro inimizade em todas as circunstâncias, mas não gosto de ajuntamento de formigas, elas me lembram comícios, embora sejam mais úteis do que os políticos, sinalizando com trabalho como será a estação. Pelo expediente interminável no jardim, com direito a horas extras na madrugada, elas anunciam dias de chuva e trabalham sem parar.

Mas eu, que não sou boba nem nada, também preparo a revanche para minhas hóspedes indesejáveis e escolho as armas. Perturbo a ''casa'', desmancho túneis, quebro as pontes, ponho na toca um fumo de corda malcheiroso. Mas ainda estou em fase de aviso. As bichinhas são impertinentes e levantam as ''antenas'' diante das minhas armadilhas como se dissessem: ''Não estamos nem aí.'' O que elas não sabem é que não estou para brincadeira e, se necessário, vou alimentá-las com iscas químicas que explodem dentro do formigueiro.

Maldade? Não, estou em pé guerra. E se ainda não pintei o corpo é para que elas não pensem que sou amiga de inseto, feito os índios. Formigas, cupins e políticos são bichos impossíveis de se conviver. Máquinas de moer alimento e dinheiro, que se reproduzem à velocidade da luz e colocam a sua espécie acima de qualquer outra. Bichos assim eu trato a ferro e fogo, sem economizar isca venenosa. Piedade eu guardo para os inocentes e prefiro proteger árvores a levar picadas. Cada um sabe qual é o seu lado. Então eu declaro: ou o Brasil acaba com as formigas e os políticos ou eles acabam com o Brasil. Eu, hein?! Deste ano não passa, já declarei a guerra.

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