CÉLIA MUSILLI - Fala coração!
Eu quero um coração que aguente as ondas, feito de vidro temperado, olho de peixe no interior do navio, daqueles que suportam a tempestade, os humores das marés humanas, puxando e repuxando as expectativas como um fio.
Mas que nada. Eu tenho um coração de manteiga, um coração de espuma, mousse de maçã, biscoito de nata, papel de seda tão fino que daria para embrulhar presente.
Meu coração não combina com amores velozes, sem as canções de Piaf, os filmes de Lelouch, os sonhos de Fellini, o gosto pelas tardes em que se dedilha ao violão as mais delicadas melodias.
Meu coração não combina com amores que passam de metrô, na velocidade dos games, dos carros de Fórmula 1, sem tempo para Drummond, as reflexões de Pessoa e seus heterônimos, os encantos da fábula, as rendas da língua.
Meu coração gosta de cartas, embora vibre com bilhetes, passeios sem prazo ou sem rumo, temporadas de verão, dias de sol e de chuva, cantiga de ninar, um gato bebendo leite, um cão vigiando estrelas, imagens que vêm e que vão, emoções que pulam das caixas onde está escrito ''frágil'' para indicar que ali se guardam vidros, espelhos e porcelanas.
Em noites frias meu coração arde como fogueira, solta fagulhas, fumaça, eleva-se entre as nuvens, carrega mensagens subliminares. Apesar das faíscas, ele é feito de cristal, matéria-prima de princesa. Bate, trinca, corrompe as horas, tem pulsações desenfreadas, rebela-se sem aviso.
Mais de uma vez eu disse: ''Sossega coração'', mas ele foi intransigente, querendo ganhar o mundo, ainda que não me chame Raimundo, e tenha feito cálculos para transformar em aço meu peito de seda e de pluma.
Em sã consciência, desisto. O que esperar de uma máquina que nasce pulsando, onde se encontram fibras, veias, vasos que conduzem sangue, vida, sentimentos explosivos como uma bomba-relógio? Não há mais tempo. Perdi o prazo das reformulações, provei o encanto e o desencanto das emoções de manteiga, mousse de chocolate, calda de caramelo, confeito e sorvete de fruta. Quando menos espero, derreto.
Então me lembro que coração de mulher é sobrevivente de guerra. Enfrenta o perigo, esgarça feito um tecido, não é à prova de nada, mas deflagra sempre uma bandeira de paz. Quem não vive sem paixão, cedo ou tarde aprende a colar caquinhos. Assim, trago no peito um mosaico, suprema obra de arte ou, em outras palavras, um coração vermelho, maduro, cheio de lembranças, climas, paisagens, cortes, suturas, quinas, saudades e que permanece quase, quase inteiro.
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