CÉLIA MUSILLI - Eu e meus carros
Nunca liguei muito para carros e mesmo que tivesse a oportunidade de ter um ''último tipo'' talvez o trocasse por uma volta ao mundo, passando pelo deserto do Saara onde os camelos têm mais utilidade do que um automóvel.
Na verdade, minha história com os carros é hilária. A começar pelo Fiat 147 com o qual ia à faculdade nos anos 80, levando e trazendo amigos que até hoje não sei como tiveram a coragem de andar comigo. Fiquei um bom tempo com aquele carro que era minha péssima marca registrada, mas parceirinho dos bons nos dias de sol ou de chuva. Levei azar, ou imensa sorte, na noite em que o estacionei na avenida Higienópolis e o motorista de um Escort, a uns 100 por hora, entrou na sua lateral sem dó nem piedade.. Como meu carro estava parado, não havia o que discutir. O moço teria que pagar o conserto, mas já não havia conserto e, depois de muita conversa, ele se viu obrigado a me pagar o valor integral do automóvel. Se é que ''aquilo'' tinha algum valor.
Pouco tempo depois, recém-saída de um divórcio, decidi comprar meu primeiro carro sem palpite masculino. Não preciso dizer que me dei mal. Com a grana do primeiro Fiat 147 e mais umas economias, lá fui eu sozinha para a ''pedra'', local no centro de Londrina onde os picaretas vendiam gato por lebre. Escolhi outro Fiat 147 e voltei feliz da vida para casa, enquanto os picaretas comemoravam como se tivessem me vendido a Bomba H.
Não precisei rodar muito para descobrir que aquele carro era que nem homem bonito: só prestava a lataria. No mais, tinha o motor avariado, como o cérebro de alguns tipos que não funcionam nem sob pressão. Passados alguns meses, vivi uma nova aventura quando ele foi roubado, enquanto eu fazia plantão no jornal e tinha deixado o bonitão numa rua escura.
Depois do estresse da ''ocorrência'', que me obrigou a registrar um BO na delegacia, passei uma noite insone esperando a polícia dar a busca para tentar encontrar meu Fiat velho de guerra. Não preciso dizer que nem os ladrões aguentaram aquele carro e o abandonaram, poucas horas depois, na periferia da cidade. Acho que chegaram à conclusão que só mesmo um idiota podia rodar com aquilo.
Fui buscar o carro e, na minha volta triunfante para casa, protagonizei no prédio em que morava uma cena de comédia. O automóvel estava mais avariado do que de costume e precisou ser guinchado. Mas caminhão, guincho e carro era coisa demais para passar pelo tempo cronometrado do portão eletrônico. Quando o carrinho estava quase entrando...bumm, o portão fechava e a operação tinha que recomeçar. Depois de umas quatro tentativas, com os moradores do edifício nas janelas observando com ódio minha ''epopéia'', meu Fiat imprestável foi, enfim, colocado na garagem e quase cantei ''Aleluia!'' para louvar ao Senhor.
Minha aventura com os carros não parou aí. Um dia, fui escalada para fazer matéria sobre o lançamento de um novo carro. Lá fui eu para a Bahia, sem saber direito o que era ''trio elétrico'', expressão muito utilizada pelos vendedores de automóveis. Pensava que ''trio elétrico'' era apenas o carro de som que levava Ivete Sangalo pelas ruas de Salvador no Carnaval. Mas tive tempo para aprender algumas coisas. Os lançamentos são festivos, duram alguns dias, e havia palestras em que os jornalistas especializados discutiam até mesmo a ''rebimbela da parafuseta'' com cara de doutores. Fiquei bem quietinha, só consultando o manual do automóvel e pegando no ar as informações dos entendidos. E, mais uma vez na minha vida profissional, a sorte ficou ao meu lado: o carro que estava sendo lançado era um modelo de quatro portas. Então, quando os sabichões se enfiavam no banco da frente para discutir o painel, a direção e o novo câmbio, eu me sentava no banco de trás e ficava atenta às ''aulas''. Voltei da Bahia sabendo quase tudo do automóvel, escrevi uma matéria redondinha, sem dar vexame, e nunca mais esqueci que ''trio elétrico'' não é apenas aquele carro de som cheio de axé.
Na vida pessoal, mais tarde troquei o velho Fiat por um Tipo quatro portas, para homenagear aquele carro que me ''salvou'' na Bahia. Viva o Senhor do Bonfim! Depois me enamorei de um Palio, com quem vivo até hoje. Ele não chega a ser bonito, mas tem cérebro...ops. Tem motor.
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