Pisei na Ilha do Mel pela primeira vez há mais de 20 anos. Ainda não havia bares nem as multidões urbanas. Apenas sol, areia, mata e mar. O suficiente para os acampamentos ''selvagens'' daqueles que queriam romper, pelo menos por uns dias, com a civilização e se entregar aos seus próprios pensamentos ou ao ''nada'' sem exercitar técnicas mirabolantes de meditação. A meditação era estar na ilha.
Voltei outras vezes e vi um número cada vez maior de pessoas, mas não o suficiente para tirar o sossego ou interferir na contemplação da paisagem. Quem quiser pode ser uma ''ilha'' na Ilha. Comparado a outras praias, o local ainda é um oásis, entregue aos dias e noites onde hoje só se ouve o mar e a batida persistente do reggae. Mas a Jamaica não é ali. Para quem não sabe, a Ilha do Mel fica no litoral do Paraná, a duas horas de barco de Paranaguá ou a apenas 40 minutos de Pontal do Sul. Tem praias bem conhecidas e um ''fenômeno'' provocado pelo avanço do mar nos estimula, a cada ano, a voltar para ver o istmo, um ponto onde a ilha está quase se partindo ao meio. Há décadas dizem que ela será dividida e formará duas ilhas. Mas as areias ainda resistem.
A população flutuante que percorre o Brasil em temporadas de praia também passa por ali. Pessoas de todos os estados, velhas e jovens, muito jovens. Estrangeiros nos dão a impressão de que entramos na Torre de Babel. Falam francês, inglês, espanhol, japonês. E todos sorriem como se tivessem reencontrado o paraíso perdido. Distantes de suas terras, ficam conhecendo a lenda da praia das Encantadas e a gruta para onde as sereias atraíam e ''encantavam'' os marinheiros em tempos remotos. Histórias do mar que gosto de ouvir. Quem disse que não existem sereias?
A região foi colonizada a partir do século 16. Em 1550 começou a ser construída a primeira igreja de Paranaguá e do porto os carregamentos de escravos seguiam para a praia que ficou conhecida como Ilha das Peças, a poucos quilômetros da Ilha do Mel. As ''peças'', no caso, eram os negros, tidos como ''mercadorias'' a serem escolhidas e compradas pelos senhores. Fatos de triste memória.
Hoje, o comportamento libertário de quem frequenta a ilha é a antítese do preconceito. Todas as tribos se encontram. Entre o peso da História e a leveza da paisagem compartilham-se dias com nativos e viajantes.
Pensando bem, há sempre uma ilha em nossas vidas, há também momentos em que nos sentimos uma ilha. Naquele arquipélago de humanidades, ouvindo todas as línguas, tenho horas de total isolamento. As praias são lindas. Há tardes douradas e lilases. Um dia, um navio azul e rosa entrou na paisagem e saiu como se estivesse carregando tintas. Minha memória fotográfica guarda flagrantes. Este foi um, vieram outros.
A natureza segue seu fluxo e não paramos em lugar algum. Como estrelas do mar aparecemos e desaparecemos na ilha, sob o céu que nos engole como o leite da Via Láctea. Aqui e ali, deixo pegadas na areia, passadas anônimas, minha frágil trilha de perguntas que levo ao mar. Haverá respostas em garrafas flutuantes?
Vendo os recortes da paisagem, penso num verso de Manoel de Barros: ''A expressão reta não sonha.''
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