23 horas, calor de quase verão, abro as janelas e as portas de casa. De repente, vejo na salinha de TV um bibelô estranho. Fixo o olhar na penumbra e, entre um arrepio e o susto, percebo que o bibelô é um sapo. Dorso amarelo e levemente enrugado, pernas definidas como as de um ginasta, ele permanece imóvel, demonstrando sábia indiferença às sandices de Luciana Gimenez na telinha.
Meus filhos viajaram, mas lembro-me que gostam de me pregar peças. Já deixaram na porta um camundongo e até uma cobra de brinquedo. Depois ficaram à espreita, esperando o susto, e desataram a rir festejando o meu descontrole. Por que será que os guris adoram quando faço escândalo?
Mas os meninos não estão em casa, estou ali sozinha diante de um sapo. Ainda em dúvida sobre se aquilo é um objeto ou um bicho, resolvo tocá-lo. Na falta de um revólver ou um simples estilingue, me armo com um prosaico rodinho, fiel companheiro na limpeza da cozinha, do banheiro e outras ''superfícies lisas''. Toco de leve as suas patinhas traseiras. Ele se move, a prova não deixa dúvidas sobre minha insólita companhia. Por segundos não sei o que é pior, ver um sapo ou Luciana Gimenez. E penso que aquela visita só pode ser castigo. Peço proteção aos santos e toco o sapo pela segunda vez. Ele sai p...u...l...a...n...d...o.
Percebo que não preciso machucá-lo. Ele se deixa conduzir pelo rodinho, talvez confundindo a face emborrachada com os carinhos de uma fêmea.
Ele pula com um movimento inflável. A cada toque salta como um balão que enche e esvazia. Acompanho suas acrobacias. Consigo fazê-lo virar-se para a porta de saída, um tapete atrapalha sua passagem. Ele fica imóvel. Solto o rodinho sem fazer barulho, arrasto o tapete com medo que o bicho me tome por um alvo. Fico aliviada com sua imobilidade. Penso que, afinal, ele não é tão mau assim. Dócil e obediente, espera minha condução. Eu quase entôo uma cantiga da infância: ''Sapo-cururu na beira do rio...'' pra ver se ele volta para a beira do lago.
Moro perto de uma área verde, em dias de chuva vejo sapos no jardim, alguns ''moram'' no meio das bromélias, que abrigam insetos. Nunca me importei em dar casa e comida a outras espécies. Durante o surto de dengue na cidade, deixei os sapos à vontade e quase instalei nos canteiros a placa de um restaurante inusitado: ''Mosquitos a la carte...'' Mas nunca pensei em assistir à tevê na companhia de um anfíbio.
Ai, ai, ai, o bicho estancou na cozinha. Entre a geladeira e a pia faço manobras com meu rodinho mágico. Deus salve os rodinhos e abençoe as vassouras nas noites de verão. Dou mais um toque nas suas patinhas, dois, três...Ele percebe a corrente de ar entrando pela porta, segue o vento e pula rapidamente. Em minutos, que pareceram horas, coloco pra fora o sapo que queria ver Luciana Gimenez. Eita, mau gosto dos diabos.
Supersticiosa, enquanto fecho a porta penso por que motivo me apareceu um sapo. Lembro das bruxas, das conjurações das feiticeiras fazendo mingaus com asas de morcego e pernas de rã. Eu, hein?! Há muito tempo deixei de lado minha tendência esotérica e agora me aparece esta figura, no meio da noite. Cismada, volto pra salinha de TV. Antes vejo o bibelô fajuto esgueirar-se por um canteiro com suas pernas de borracha. Ele some e fico pensando: ''E se fosse um príncipe?'' Melhor esquecer esta idéia maluca, não tenho idade pra acreditar em contos-de-fada. Além disso, nunca tive muito discernimento para saber a diferença entre um príncipe e um sapo. Melhor nem lembrar daquela história de beijo.

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