Na infância eu queria ser consultora sentimental. Inspirada nas revistas femininas, que sempre traziam seções deste tipo, achava que as consultoras cumpriam um papel que ficava entre o de mãe, psicóloga e amiga íntima, dando conselhos que, se não resolviam, pelo menos aliviavam os problemas dos apaixonados.
Entre as colunistas, lembro-me de Carmem da Silva, muito requisitada, e de Madame X, que padecia de um ''realismo'' que mais entristecia do que alegrava as moças de corações partidos. Elas perguntavam: ''Madame X, por que será que ele nunca mais ligou depois do primeiro encontro?'' E vinha a resposta nua e crua: ''Porque se desinteressou. Não tenha dúvidas de que homem, quando gosta, corre atrás.''
Ou, então, a consulente indagava: ''Ele vive olhando para as outras na rua, no bar, no cinema, o que é que eu faço?'' E Madame mandava ver: ''Cuide mais da sua vida, minha filha, e pare de querer controlar os olhos do seu namorado. Na rua a gente passeia, no bar a gente bebe e no cinema assiste ao filme''.
Hoje há pouco espaço para consultórios sentimentais. Os livros de auto-ajuda parecem suprir esta lacuna, funcionando como manuais de sobrevivência em tempos modernos. A grande surpresa, no entanto, veio com o Consultório Poético que o escritor gaúcho Fabrício Carpinejar mantém na revista Superinteressante (isso mesmo!). E eu fico pensando no que levou um homem a ser consultor de problemas emocionais. Mais que isso: Como uma revista científica, de repente, abriga uma seção que parece coisa dos velhos almanaques?
Aí que está: existem coisas que nunca saem de moda, entre elas a compreensão. O ''saber ouvir'' e ''saber falar'', na hora certa. Porque conselho nada mais é do que isso, um diálogo em que cada um faz a sua parte e a gente aceita se quer ou se identifica.
Carpinejar é um escritor daqueles que despertam confiança imediata. Tem muita psicologia, tato e delicadeza para tratar das questões humanas e não é sem motivo que acabou criando o Consultório Poético, um espaço onde a vida sempre parece mais leve ou, pelo menos, viável.
A duas jovens de 23 anos que lhe escreveram para saber ''o que há de errado'' com elas, já que são bonitas, bem informadas e não conseguem arranjar namorados, ele respondeu: ''Queridas Inês e Roberta, não sou adepto de que algo está errado quando nada está errado. Não surgiram relacionamentos estáveis para as duas, ainda. Não devem mudar. O que cansa vocês é a expectativa. Esperar que a cada saída noturna apareça a tão sonhada figura. A esperança é que nem cartão de crédito, cobra juros depois de um mês. A angústia de vocês é um exemplo. Estão sendo vítimas do perfeccionismo, entravadas entre a cobrança própria ou do mundo. Ambas são barreiras imaginárias. O namorado vai aparecer de onde menos aguardam.''
Se a resposta foi suficiente para devolver a tranquilidade às moças, não sei. Mas a frase ''a esperança é que nem cartão de crédito, cobra juros depois de um mês'' é de uma sabedoria infinita. Muitas vezes, esperar demais nos conduz à frustração. E deixar a vida nos levar pode ser o melhor caminho para encontrar a felicidade. Já ouviram dizer que ''quando a gente menos espera, acontece''. Pois é.
Nestes tempos sisudos, de pouco calor humano, ouvir um consultor sentimental pode não ser a solução dos problemas. Mas que respostas inteligentes ajudam, não tenho a menor dúvida. Prefiro mil vezes criar relacionamentos a partir de contatos humanos - procurando, encontrando, ouvindo, falando, escrevendo, respondendo, enfim, vivendo - do que imaginar que tudo se transformou num grande fast food e que isto basta.
Há coisas que não se compram. Entre essas coisas estão o amor e a amizade. Num mundo cada vez mais louco, em que se fala em ''personal trainer'' e ''personal stylist'', surgiu recentemente a figura do ''personal friend''. Isto mesmo, uma pessoa que a gente contrata para ser nosso amigo. O ''personal friend'', segundo as regras, vai com você ao cinema, à boate ou ao shopping tomar água de coco. Ele age como se fosse um amigo de verdade, mas é mera companhia e bem paga.
Pensando nisso, prefiro voltar aos tempos em que se pediam conselhos de graça às consultoras sentimentais para resolver o que parece quase insolúvel: a solidão, que gera carência, insatisfação, medo, insegurança. E não será um ''personal friend'' quem vai solucionar problemas tão delicados. Neste caso, é melhor consultar Madame X, ainda que ela diga coisas ''na lata'', do que contratar um amigo de mentirinha que só vai dizer o que você quer ouvir. Chegamos a um ponto em que se vendem até amizades ''sob medida'', como se afeto não fosse coisa feita também de diferenças, conflitos e tudo mais o que é humano, demasiadamente humano. Estamos querendo padronizar a vida, com ''bons'' empregos, ''bons'' casamentos, carro na garagem, apartamento quitado e amigos perfeitos. Mas a vida tem desvios, esquinas, dobras. Ao que me parece este é X da questão. Não é mesmo Madame?

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