Do mar de lama de Brasília emergem histórias de folhetim. A última envolveu o senador Renan Calheiros e a jornalista Mônica Veloso, guindada repentinamente ao status de ''musa'' de mais um escândalo sexual: daqueles bem midiáticos, apimentados, capazes de aumentar a venda de jornais e até inspirar autores de novela pois, como se sabe, a vida imita a arte e supera até a ficção.
Passado o terremoto, Renan escapou da cassação, continua casado com uma esposa ''sensata'' que preferiu não rodar a baiana e Mônica (ah! as Mônicas) virou a ''playgirl'' da estação, aparecendo nua na revista masculina mais cobiçada do Brasil. O fato é que homens de todas as camadas sociais conseguiram ''comer com os olhos'', nas bancas ou nas páginas da Playboy, a amante de um político poderoso e, às vezes, isto basta para manter a libido do País em alta.
Como explicam os psicanalistas, libido não é só o combustível da vida sexual, é o combustível de toda atividade que tem o dom de estimular as pessoas. E, pelo sim ou pelo não, contra ou favor dos amantes, todo mundo discutiu a ''nossa Mônica'', às vezes lembrando que ''ela é bem mais charmosa'' do que sua similar americana: Monica Levinski que, anos atrás, colocou de cabelo em pé as ''boas famílias americanas'' ao protagonizar com Clinton um caso que daria ótimo enredo de filme pornô: uma estagiária, na Casa Branca, pintando e bordando com o homem mais poderoso do país. E lá, com um pouco mais de inteligência, Hillary Clinton capitalizou os lucros do escândalo e agora... bem, agora vão longe os dias de odores nauseabundos que o caso exalou na América e a perspicaz Hillary é bem capaz de concorrer e ganhar as eleições presidenciais nos EUA, provando que não dá ponto sem nó, nem perdão sem perspectiva de voto.
Isto tudo me faz pensar que a combinação de sexo e poder é a química que, queiram ou não os moralistas, move o mundo. Brasília, por exemplo, é pródiga em casos extraconjugais, lotada de políticos que invariavelmente deixam suas famílias nos estados de origem e revivem as delícias da vida de solteiro, com a vantagem de poderem oferecer às namoradas de ocasião as benesses proporcionadas pelo cargo que ocupam: festas, viagens e até passagens de avião. Com um apelo desses, não faltam na capital, mulheres a fim de ''fazer carreira'' de um modo bem mais confortável do que bater ponto em jornadas de 8 ou 10 horas por dia. No Brasil e no mundo, sexo e poder andam de mãos dadas através do tempo e as cortesãs fazem parte da República como sempre fizeram parte dos impérios.
A impressão é que um homem poderoso sem amante é poderoso pela metade. E, por meio desta lógica, os psicanalistas explicam como a idéia de virilidade está ligada ao sexo que se pratica fora de casa, alimentado por um conceito fortuito e machista. Mas basta que a lógica se inverta e uma mulher casada arrume um caso para que a ''mágica do poder'' vire sinônimo de fraqueza, porque mulher não pode fazer o que os homens fazem. Ou até pode, mas sempre vai pagar um preço bem mais alto.
Mas o assunto aqui é sexo e poder e não a diferença entre os sexos. Então vamos voltar ao passado e constatar que a história de Brasília é pródiga em contos de folhetim.
JK, como se sabe, teve uma amante cativa e com ela uma relação que durou quase tanto quanto seu casamento com a discreta Dona Sarah. João Goulart viria a sucedê-lo no poder também com fama de garanhão que não podia ver uma saia, apesar da beleza incontestável de Maria Tereza, que mantém até hoje a fama de ter sido''a primeira-dama mais bonita do Brasil''. Com a ditadura, os homens feios do poder aparentemente levavam a vida conjugal mais a sério. Mas de duas, uma: ou dispunham de mecanismos mais eficientes contra o vazamento de informações - em outras palavras, uma censura tão ativa na vida privada quanto na vida pública - ou não descolavam amantes dispostas a protagonizar com eles, pelo menos publicamente, o filme trash que inventaram para o País. O fato é que não foram flagrados desfilando com mulheres, só com os cavalos. Ao contrário de outro célebre ditador do Brasil: Getúlio Vargas, que não dispensava os cavalos e tampouco as vedetes do Cassino da Urca, corroborando a idéia de que sexo e poder sempre andaram de mãos dadas, tanto no Rio quanto em Brasília. Porque o pecado é capital.
Nos tempos em que a idéia de manter a virilidade a qualquer custo ganha da ciência um reforço valioso, através de drogas como o Viagra, ser macho no Brasil é mesmo uma questão de honra ou até mesmo de desonra que se encara com charme e tolerância, quando a coisa vira escândalo. Aqui a memória é fraca para o que realmente importa e, passados alguns anos, é bem possível que se refiram a Renan não como um político corrupto, mas como o Don Juan das Alagoas ou o ''latin lover'' do Senado. Por um mecanismo que não sei explicar, o folhetim é sempre mais midiático e encantador do que os fatos. Assim, todos querem mesmo é ver a Mônica na Playboy.
No caso dos políticos, mesmo quando a virilidade, com o passar dos anos, vai embora, resta o consolo que Sartre celebrizou numa frase: ''O poder é o sexo dos velhos.'' Entenderam porque a libido não pode ser vista apenas como um atributo da sexualidade? Pois é, a libido é um impulso móvel e muda de contexto podendo substituir o sexo por outros vícios bem mais perniciosos: abuso de poder, por exemplo, ou mania de achar que se pode levar vantagem em tudo, sem nunca ser punido pelos próprios atos. Isto causa o maior ''frisson.'' Exatamente como se vê em Brasília, a cidade mais libidinosa do País. E tamanho desvio de conduta nem Freud explica.
[email protected]

mockup