CÉLIA MUSILLI - Big Brother nas esquinas
Não vim falar só do programa da Rede Globo, mas do ''olhão'' que nos espia em cada esquina. Das câmeras estrategicamente colocadas nos bancos, nos elevadores e nos lugares públicos. Do aviso que tenta ser simpático: ''Sorria, você está sendo filmado''. Sorria? Não há motivos para sorrir quando cada ato é objeto de registro e investigação. Mas fico pasma porque percebo que ninguém questiona este controle. O território privado virou território público. Nosso santo direito à intimidade ou ao livre trânsito está minado por um coercitivo senso de que tudo precisa ser vigiado. Vivemos os ''tempos modernos'' das câmeras, dos alarmes, dos chips. E ninguém se espanta.
Quando o escritor inglês George Orwell escreveu ''1984'' e criou a idéia do Big Brother (Grande Irmão) fazia uma crítica ao comunismo stalinista, aquele em que todos os cidadãos eram suspeitos e monitorados pelo Estado. O que não se sabia é que, décadas depois, o capitalismo usaria os mesmos mecanismos para vigiar, monitorar ou...vender.
Numa agência bancária, dia desses, fiz questão de anotar o que, à primeira vista, parece um ''aviso do bem''.
Lá está escrito:
- Porta giratória com detector de metais
- Circuito fechado de TV com alarme interligado à polícia 24 horas
- Cofre com fechadura de tempo controlado, não sendo possível a abertura imediata.
Eu pensei: ''Em que mundo vivemos, meu Deus?. Alguma coisa está fora da ordem neste rebanho monitorado.'' E me sujeitei à roleta que nos vira do avesso, ao alarme que nos impede de usar brincos e pulseiras, que nos faz retirar celulares, chaves e as moedas da bolsa como se dinheiro fosse só de papel. E tem gente que sorri quando está sendo filmada.
Enquanto a violência grassa por aí e as soluções de um pacto social continuam à deriva, nos sentimos seguros ficando dentro dos muros, das redomas, das grades, dos condomínios. Somos prisioneiros do próprio sistema e achamos graça em sermos vigiados como celebridades do BBB. Mas somos gente comum, nem bandido nem mocinho, que num futuro, não muito distante, será monitorada por microchips com antenas. Tá ligado?
A ''revolução do futuro'' prevê uma ''rede mundial'' de farejadores que não vão oferecer apenas segurança. Mas investigar o que vamos comprar, vestir, dirigir, ler. Uma vez assim monitorados, nossos hábitos vão dar subsídios para as empresas desenvolverem produtos e oferecem bens de consumo para todas as classes. Trata-se do Big Brother Sistema, uma realidade que não faz parte do show, faz parte da vida, é realidade pura.
A idéia é que nas ''casas inteligentes'', sensores colocados nas paredes e nos eletrodomésticos investiguem nossos gostos, ao mesmo tempo em que enviarão dados para agências de marketing desenvolverem anúncios ''sob medida''. É a teia do consumo, vista sob o prisma moderno da Tecnologia de Identificação por Frequência de Rádio (RFID, na sigla em inglês). Trata-se de um equipamento que combina microcomputadores com antenas de rádio para transmitir para empresas informações sobre produtos e seus compradores.
Matéria recente de jornal dá conta de que hoje já existem microchips ''dentro de algumas impressoras de computadores, chaves e pneus de carro, na tampa de xampus e em etiquetas de roupas em lojas de departamentos.'' Também informa que: ''Quando as etiquetas forem colocadas em muitos objetos, repassando informações para bancos de dados que manteriam contato com cartões de crédito e cartões de banco, quase nenhum aspecto da vida das pessoas estará livre dos olhos das empresas e do governo.''
E tem gente que sorri quando está sendo filmada.
Quando escreveu ''1984'', Orwell nem sonhava que um dia assistiríamos ao ''fascismo do consumo''. Mas está aí para quem quiser ver e não se trata de ficção científica. Com um controle deste porte estamos todos no paredão. Tá ligado?
[email protected]





