CELIA MUSILLI - Aventuras dentro de casa
Por que será que as crianças adoram band-aid? Se esfolam o joelho ou machucam o dedo vão logo pedindo o curativo que, pelo menos, não arde como o mertiolate da nossa infância. Eita geração feliz. Ninguém precisa mais contorcer o corpo, feito um mosquito atingido por vinagre, quando faz cortes e arranhões. Por via das dúvidas, elas evitam sempre que podem o mercurocromo, o bom e velho iodo, preferindo o band-aid sem recusar o ''sopro da mãe'', porque isto sim é que cura. O resto é coadjuvante, não é mesmo?
Aqui em casa, quando um dos dois se machuca, o band-aid faz o maior sucesso. Porque protege os cortes sem colar na pele, ao contrário dos esparadrapos que de duas, uma: ou não grudam direito ou parece que não vão sair nunca mais. Será que os fabricantes de esparadrapo já perceberam isso? Acho que não. As fábricas são especialistas em fazer tampas que não abrem, conta-gotas que não pingam, antibióticos que quase nos obrigam a chamar o guarda-noturno para serem destampados. E quanto mais avanços, pior fica. Daqui a pouco vidro de xarope vai ter segredo de cofre, porque para tirar uma dose a gente já tem que virar alguns pra lá e pra cá. Por que será, hein? Chamem o Fantástico, eu quero levar as tampas para o Inmetro.
Band-aid em criança só tem um problema, se a gente não fica de olho, eles colam um no Carnaval e ficam com ele até a Páscoa. Aquela coisinha encardida que se transforma em perigo se ninguém lavar a ferida com água e sabão, ensinando as regras da higiene.
Mas, além do curativo não doer nem um pouquinho, ele faz sucesso porque encontrar band-aid na caixinha de Primeiros Socorros é uma aventura e tanto para a criançada. Normalmente, ela fica no banheiro dos pais, dentro de um armário. Então a criança vai lá, abre a portinha, espia a coleção de cremes da mãe, a espuma de barba do pai, as pomadas que a gente até esquece para que servem e, no fim, quer saber para que existe a pinça. Pra tirar estrepe, oras, aquela cirurgia dificílima que consiste em segurar o pé da criança com uma das mãos e, com a outra, acertar o ponto em que está a pequena farpa que deve ser retirada com precisão...zapt, porque senão o menino esperneia e a gente tem que começar tudo de novo. Para quem não sabe, já recomecei com pinça e agulha desinfetada umas duzentas vezes, desde que tive os gêmeos que vivem se estrepando aqui em casa.. E quando a farpa sai, que alívio! A mãe vira heroína, além de uma grande contadora de lorotas que diz: ''Muito bem, meu filho. Você se comportou como um guerreiro tupinambá.'' ''Tupinambá não, mãe, aqui em Londrina só tem kaingang. '' É, a gente é obrigada a ouvir cada uma.
Fica todo mundo feliz quando chega a hora de guardar a pinça, a caixa de Primeiros Socorros e esquecer do machucado que nem dói depois da delicada ''cirurgia'' que nos transforma em médicas, enfermeiras de araque, mãe de tupinambá, avó de kaingang e o que mais couber na imaginação, quando o assunto é tratar da criança que se estrepa demais por aí.
Imagino o que seja cuidar de meninos de braço quebrado, operados da amídala, com a febre da dengue, se segurá-los pelo pé para tirar uma farpa já dá o que fazer. Para mim, trabalho maior do que criança machucada só dão os gatos doentes, imprevisíveis quando têm que engolir um comprimido. Geralmente é dono para um lado, gato pro outro, até a quinta tentativa. De novo não entendo a indústria de medicamentos, que faz vermífugos para bichos em comprimidos. Não sabem ainda que gato odeia pílulas, que cospe e baba pra engolir qualquer corpo estranho, com cheiro de enxofre, e que remédios para eles deveriam ter sabor de filé? E não estou falando de gato de grife não, estou falando de gatinhos ''básicos'', destes que odeiam vermífugos, furam o sofá e até o olho do dono, se forem obrigados a engolir o que não querem. Da última vez, o meu ficou morando um tempão atrás da geladeira. Enquanto eu repetia um mantra: ''Psii...psii, vem cá bichano!'' E ele me olhava como se eu fosse do BOPE.
Pelo menos neste quesito, crianças são bem melhores: não soltam pêlos, não destroem almofadas nem arranham nossos braços a ponto de precisarmos procurar o band-aid na caixa de Primeiros Socorros. Porque fazer curativo em mim, depois de curar o gato, é muito desaforo. Passei por isso três vezes. Da última fui morar atrás da geladeira e troquei o nome do bicho para Capitão Nascimento. Com aquele ímpeto todo, ele só pode ser da Tropa de Elite.
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