CÉLIA MUSILLI - Assisto à TV para cair no sono
TV para assistir ou TV para dormir? Quando me instalo no sofá para ver programas não sei quanto tempo vai durar o vaivém dos dedos nas teclas do controle-remoto. Como se ouvisse uma canção de ninar, não demora muito para eu sentir um sono irresistível e, assim, quase sempre vejo tudo pela metade: filmes, novelas, shows ou qualquer outra atração do imenso menu da TV aberta ou da TV paga.
Futebol nem se fala, é só os times entrarem em campo e Galvão Bueno começar a narrar que tenho a impressão de estar ouvindo a história do Chapeuzinho Vermelho e caio no sono. Só que deixo o volume bem baixinho, que é pra ele não me assustar com aquele enredo de passes, lances, marcações e o inevitável grito de gooollll que espanta até o lobo. Futebol é o sonho nacional e o meu pesadelo. E vocês bem sabem que a culpa não é minha. Trauma tem nome e sobrenome, senhores.
Às vezes acho que só assisto à TV para dormir. Melhor que Lexotan, chá de erva-cidreira, homeopatia ou qualquer outro remédio capaz de induzir o sono é a novela das 8, agora das 9. Talvez a fala de Antônio Fagundes, na pele de Juvenal Antena, tenha sobre mim o poder de um mantra - um mantra chato é verdade - que me envia rapidamente para outros mundos, aqueles em que a gente cochila e ...dorme. Quando acordo, nem sei direito se estava vendo Duas Caras ou Carga Pesada. Já me peguei achando que Pedro foi para a Portelinha e Bino virou um novo rico depois de vender o caminhão. Não, a culpa também não é minha. É da interpretação dos atores correndo sempre na mesma estrada. Sim, eu conheço cada palmo deste chão.
Acordo ali pelas 22 horas, pronta para assistir a um filme. Tenho preferência pelo cinema europeu e ,quando dá certo, lá está na telinha uma obra-prima de Fellini. Mas as crianças insistem em ver O Retorno da Múmia pela décima primeira vez e sou obrigada a dormir com uma legião de guerreiros sobrenaturais cuspindo besouros. Por que será que as crianças têm um gosto tão bizarro? Freud deve explicar porque adoram o Homem-Mosca, os Aliens, O Predator e as aranhas gigantes. A saída, vocês sabem, é fechar os olhos para não ver.
À meia-noite a TV é só minha. Se dou sorte, tem filme francês com enredo de casais que se amam mas nunca dão certo, estão sempre insatisfeitos, possuídos pela vã filosofia que prega: bons romances têm os dias contados. Ah! Como os franceses entendem de separação. E viva François Ozon porque posso dormir na metade da fita e acordar no fim para ouvir uma ''chanson'' linda e triste, enquanto os casais vão embora. Como vocês sabem, casal francês que se preza não fica junto no final do filme, vai cada um pro seu lado. Mas sem crise, senhores, sem baixaria, sem vizinho para apartar a briga, sem o Ratinho e a sogra no meio. Apenas uma ''chanson'' linda e triste. Ah! Como são finos os franceses e muito menos prosaicos que os americanos, aqueles que nunca se separam e, como Hillary e Clinton, terminam os filmes juntinhos comendo peru no Dia de Ação de Graças, ainda que na véspera a discussão tenha rendido portas batendo, mulher chorando e homem admitindo: ''Eu conheço a estagiária''. Aí eu penso: ''Já vi este filme''. E durmo.
Mas confesso que sono mesmo eu tenho quando sintonizo o National Geographic Channel com aqueles programas científicos cheios de mergulhadores, exploradores, veterinários e naturalistas. Mais poderosos que os mantras do Juvenal Antena são as vozes dos que contam a vida dos animais e seus hábitos esquisitos. Ali, a câmera estática e a narração morna equivalem ao mais poderoso dos soníferos, mesmo quando há malucos estudando o comportamento dos chimpanzés, subindo em árvores e soltando guinchos: ''guiii...guiii''... enquanto coçam a cabeça ou descascam bananas como se isto fosse uma habilidade que eles aprenderam com os ''seres da selva''.
É verdade que, ao mesmo tempo em que durmo, eu também acordo sobressaltada quando vejo o aventureiro-narrador Jeff Corwin com uma cobra enrolada no pescoço. Ou ainda um programa antigo de Steve Irwin, O Caçador de Crocodilos, que morreu atacado por uma arraia. Eu, hein? Não tinha um jeito mais fácil de ganhar a vida?
Mas também admito que é uma delícia cochilar no sofá ouvindo a narrativa besta de algum apresentador dos sete mares. Outro dia, dormi em menos de 10 minutos quando escutei: ''A foca-monge do Hawaii mergulha nas águas quentes do arquipélago, a 200 metros de profundidade...'' Puxa, num piscar de olhos eu é que estava nas profundezas, no mundo dos sonhos sem homeopatia e sem erva-cidreira. Então percebi que o National Geographic é o meu antídoto para os traumas da Globo. Ali, pelo menos, nenhuma foca grita goooollll....
[email protected]





