CÉLIA MUSILLI - A morte feliz
Tio Pedro morreu dignamente aos 87 anos. Antes, dispensou as carpideiras. Também não leu as passagens que falam na remissão dos pecados a ferro e fogo. Achava improvável alguém pegar as almas, diáfanas e intangíveis, para assar nas brasas, se nem carne haveria.
Doente, não fez questão de seguir as recomendações dos médicos. Continuou fumando e tirava os cigarros do maço onde colava recortes de revistas para não ver nenhum pedaço daquelas fotos medonhas. Achava uma hipocrisia alguém vender um produto que mata, lavando a consciência com a imagem fragilizada dos outros. Dizia que estresse mata, trânsito mata e que até o coração mata e, nem por isso, a gente cola cartazes horríveis no peito dos sensíveis.
Tomava religiosamente sua caipirinha, comia feijoada e frequentava o forró aos domingos. No baile, ainda arriscava olhares para a morena Rosa, porque achava que a beleza em flor haveria de enfeitar sua vida até o fim. À tia Mariquinha dedicava outros afetos, passeava com ela de mãos dadas, plantavam hortas e nas tardes de sábado se aninhavam juntinhos para ouvir Noel.
Tio Pedro também jogava cartas, gostava de loterias e sempre que sonhava com camelo apostava no cachorro, seguindo uma lógica que, para nós, não fazia o menor sentido. Para ele, pecado mesmo era receber mensalão, pagar propina, deixar pai de família desempregado, fazer cartel em postos de gasolina, agir em nome da ganância. No mais, vivia de acordo com a sua consciência, sem alterar os planos, até mesmo na curva dos 80 quando um enfizema começou a tirar a força do guerreiro que lutou por pequenos prazeres até o fim.
Tio Zeca, ao contrário dele, tinha passado a vida colecionando mulheres, mas quando pressentiu a morte começou a fazer a ''mea culpa'' para uma retirada cheia de arrependimento e renúncia. Passou a ler a Bíblia sofregamente, querendo compreender numa sentada os mistérios do Gênesis e do Apocalipse, temendo a figura das bestas que galopavam atrás dele nos sonhos, enquanto trombetas tocavam um insistente chá-chá-chá. Também exigia a presença da mulher aos pés da cama, sem deixar que ela desse atenção às visitas, sussurrando moribundo: ''Minha querida!''. No fim, partiu como se quem tivesse morrido não fosse o mesmo homem que havia vivido. Tinha criado um personagem em si mesmo. Não deu conta de que era preciso morrer com consciência ou, pelo menos, alguma coerência. Nasceu boêmio, morreu quase santo.
Já Tio Pedro, quando deu pela hora da morte, pediu a caixinha de fósforos onde batucava sambas de roda e desfiou, sem censura, sua vã filosofia: ''Um homem não deve abdicar dos sonhos. Nem da sua comida, nem da sua bebida, tampouco das suas paixões. Deve entender que é lícito ser autêntico até o fim. Chega um dia, em que o homem deve planar sobre o seu destino, para enxergar com foco ampliado os caminhos que está deixando para trás. Não deve ter medo da morte nem receio das suas ilusões e fantasias. Porque o que é o Paraíso senão a fantasia humana de desembarcar no porto seguro da eternidade?''. Terminou a batucada e fechou olhos, deixando a dúvida se tinha avistado um anjo ou encontrado Cartola.
Durante muitos anos, pensei que a vida de Tio Pedro não daria um livro de virtudes mas, com certeza, daria um samba. Na falta de talento para empunhar um tamborim, escrevi a crônica, ouvindo um CD de Dona Ivone Lara.
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