CÉLIA MUSILLI - A flor no peito
Existem autores, como Clarice Lispector, que me colocam no limite
Existem momentos em que estamos por um fio. No limiar do choro ou do riso. Uma pequena contração e escorre a lágrima. Um suspiro e o sorriso estará na boca, nem que seja como um esgar. Existem autores e livros que me colocam neste estado de emergência, como se eu fosse também uma personagem, tão envolvida na história quanto um novelo do qual se puxou um fio e a realidade se mistura à ficção como o rio ao mar.
Tive esta sensação inúmeras vezes ao ler Clarice Lispector. Eu e mais milhares de pessoas que compartilham do inusitado instante de se misturar às suas galáxias de pensamentos. Absorvida pelo infinito das palavras que me carregam como papel, tão leve quanto fragilizada pela identificação de ser tragada ao extremo de todas as sensações. As sensações confundem-se de tanta intensidade, não deixam pistas muito claras sobre o que vai acontecer, mas acontecem. É subjetivo e forte como ser levada ao centro do furacão. Como um pássaro que se debate quando a armadilha se fecha, depois me resta a quietude para compreender, afinal, o que se passou.
A armadilha das palavras provoca-me um estado de assombro poético que significa beleza e perigo, com os alertas da sensibilidade piscando para a transposição de um nível de consciência do qual nunca sei se voltarei a tempo. Antes do choro ou do riso, protegida pela máscara da leitura intelectual, protegida dos excessos afetivos.
Eu sempre li Clarice Lispector pulsando e só recentemente soube como ela deixou a vida. Como foi o salto para o vazio que despertava nela o medo e a ânsia. Recentemente, lendo a sua biografia, escrita por Nádia Batella Gotlib, soube que, aos 57 anos, a autora se misturava como um amálgama aos seus personagens. A vida já era uma grande obra, ela transitava na criação puxando o fio da realidade. Nas entrevistas, comportava-se como alguém comum, chegou a dizer que em outra vida não queria nascer escritora, negava uma das razões mais fortes da sua existência, como conhecedora profunda da dor da escrita e do seu gozo.
De qualquer modo não seria Clarice Lispector, aquela da flor-de-lis no peito, se não tivesse escrito usando a respiração, puxando o ar para dentro e para fora, para sintetizar palavras. Palavras doces, palavras selvagens. Palavras temperadas como aço, espada e pluma. Cortando e acariciando a vida em ondas que escapavam à sintaxe.
Clarice morreu de câncer, em 1977, não sem antes ter pressentido que ia deixar a vida. Mas quis deixá-la como uma personagem de si mesma. Este estado de medo e criação foi testemunhado por Olga Borelli, amiga e secretária de muitos anos e ''até o fim'', como Clarice havia estabelecido num pacto de amizade.
Olga conta: ''Na véspera da morte, Clarice estava no hospital e teve uma hemorragia muito forte. Ficou muito branca e esvaída em sangue. Desesperada, levantou-se da cama e caminhou em direção à porta, querendo sair do quarto. Nisso, a enfermeira impediu que ela saísse. Clarice olhou com raiva para a enfermeira e transtornada, disse:
- Você matou meu personagem!''
Não tenho como explicar o impacto que me causou esta morte literária e existencial. A experiência de ''estetizar'' a morte é para poucos. Para mim, Clarice conseguiu, ainda que tenha sido impedida de dar outro fim à sua história, fugindo ao seu modo do irreversível, na tentativa de tecer um enredo.
Na véspera da sua morte, Clarice sofreu uma hemorragia. Sempre achei que a hemorragia é quando a vida sai para entrar a morte. O que acontece daí para a frente suponho que seja um frio. Escrevo sobre isto porque passei a imaginar como seria o desfecho de Clarice, caso a enfermeira não a impedisse de sair do quarto e não matasse seu personagem. Talvez como Macabéa ela tivesse, enfim, a sua ''hora da estrela''. Talvez quisesse deixar a vida ''vivendo'' sua ficção. Afinal, o que é a realidade se não o grande sonho do qual um dia também acordamos?
Ao sair da cama para tentar um outro desfecho, Clarice levava consigo seu ''instrumento'' de escrita: o próprio corpo, porque usava também o corpo para decifrar a vida. O corpo e as vísceras. Coisa raríssima, talvez por isso muito mais pulsante que o intelecto. E de tão viva nesta experiência, quis dar ao corpo um destino na transposição para a morte, ela sabia como se atravessa um portal, de corpo e alma, em estado sólido, líquido e etéreo. Não como quem é tragado, mas como quem se entrega ao furacão. Fez isto tantas vezes com as palavras. E era a vida pulsando.
Existem momentos em que estamos por um fio. No limiar no choro ou do riso. Uma pequena contração e escorre a lágrima. Um suspiro e o sorriso estará na boca, nem que seja como um esgar. Existem autores e livros que me colocam neste limite, como a mulher com a flor no peito.
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