Eu soube que foi você embora. Tomou um navio e cruzou o Atlântico para chegar à África e nem me disse nada. Com o tempo José, as intimidades e as delicadezas tomam um rumo incerto. Quem estava presente se ausenta sem despedida, não diz um ''a'', esquece de selar uma amizade que se coloca acima das paixões. Porque para gente madura, sem muitas chances de cair de amores com a profusão das folhas do outono, manter o fio de um amor é um legado que tem o valor das grandes lições da vida, daquilo que se transforma em conhecimento sagrado.
Hoje choveu por aqui, uma chuva de granizo que eu bem gostaria de descrever naquelas longas cartas onde cada vírgula tinha um significado, prendendo seu olhar atento. Senti vontade de descrever como caiu o granizo, porque não foi uma chuva comum, foi um temporal daqueles que invadem o dia como certas paixões, intensas e intempestivas.
Mas haja fôlego para falar de uma coisa dessas se você nem sente saudades. Não está atento aos meus temporais ou aos dias de luz, me deixando sem clima para contar em minúcias que as portas bateram, os ventos estremeceram e as gotas rolaram pela vidraça.
Eu gosto dos temporais, cultivo os exageros. Tenho uma vasta compreensão dos tormentos da alma e das doçuras do coração. Por isso, mesmo à distância, apelo para cartas escritas na areia. Se você chegar a lê-las, compreenderá o sentido das letras feitas para serem lambidas pelo mar. Já não conto com a duração e tampouco com a eternidade. Mas com o sentido fugaz de uma história bem contada, com começo, meio e fim, mas na ordem natural, sem interrupções pela fuga.
Esta sua idéia José, de tomar um barco e ir parar na África, me parece a debandada de um cavalo selvagem. Não precisava ser assim. Se me ouvisse, ainda se enterneceria com as histórias de sereia, dos navios-fantasma, das paisagens paradisíacas que sei pintar com a imaginação. Acho que sua fuga tem a ver com o meu encanto. Se você sentasse e me escutasse não ficaria indiferente. Mas tem tanto medo da minha carícia, das palavras de seda, que se recolhe como um caramujo que afundou num oceano inescrutável. Aí na sua nova morada, onde não me ouve nem me vê, decerto vão te contar novas histórias, mas eu duvido que você ache tanta graça quanto achava nas viagens de mentirinha que fazíamos para cruzar o oceano sem sair do lugar.
Só quando somos ingênuos e não passamos pela desesperança é possível ver encanto em enxurradas, zumbidos de abelhas, pássaros cantadores e outras simplicidades que se apagam no cotidiano das pessoas que se entregam a um destino sem surpresas: nasceu, cresceu, casou, morreu e nunca mais leu as cartas, que é para não sentir saudades.
Perder a fé no inexplicável José, não compreender que algumas pessoas vivem dentro de nós ainda que a gente se exile na África, é tentar apagar em vão os desenhos que deixamos na rocha como bichos ancestrais e muito próximos.
O resto é apenas o óbvio, o conhecido, um dia chegando após o outro sem os estremecimentos da alma e as doçuras do coração.
É como eu digo José, com o tempo as intimidades e as delicadezas tomam um rumo incerto. E ainda que não se apaguem, doem. Não precisa ser assim. Ainda é tempo de saber que hoje caiu por aqui uma chuva incomum. Daquelas que a gente não encontra nem na África, José. Eu só queria te contar que as águas rolaram.
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