Carta para 2020
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de janeiro de 2020
Celia Musilli - Grupo Folha 
Em 2020, procuram-se pessoas que eliminem tristezas, angústias e dúvidas desnecessárias como quem derrama de um saco de papel os últimos farelos, as cinzas dos cigarros, os copos descartáveis, gente sem conteúdo e outros inutensílios. No lugar disso tudo que sejam colocados afetos, maçãs, sementes para um campo de lírios, mousse de maracujá para os dias quentes e um urso de pelúcia para os dias frios.
É imprescindível ter um sapato confortável para atravessar a cidade ou, quem sabe, dar a volta ao mundo em 365 dias, com direito a mergulhar descalços por algumas léguas submarinas.
Evitem carregar pesos demasiados, eles fazem doer as costas. Mas tenham sempre bons livros, filmes de amor, capim-cidreira para os dias tensos, pimenta para dar ânimo quando a vida exigir um vatapá em vez de salsichas vienenses.
Champanhe é bom, mas água é melhor e também sucos de cupuaçu, graviola e laranja com gelo. Lembrem-se que leques de palha refrescam e não custam nada. Basta plantar uma palmeira, de preferência à beira-mar, acompanhada de rede e uma música de Caymmi.
Perfumes também são bem-vindos, desde que não irritem as narinas nem impeçam que o ar inunde os pulmões nos primeiros dias do ano. E que à noite o orvalho seja uma chuva de bem-aventuranças.

Neste dia, reservem tempo para um café demorado e que haja trocas de olhares, sorrisos marotos, carícias que eriçam. Deixem que as pernas se cruzem e os pés se toquem sem pudor. A expectativa é de prazer e completo desprendimento. Acreditem nos sortilégios, ainda que por brincadeira, e estimulem a inteligência intuitiva com “olhos interiores” que enxergam cada vez mais longe. Lembrem-se que o tempo é uma ilusão, mas vivemos cada dia uma única vez, extraindo deles a compreensão mágica da plenitude quando somos capazes de nos entregar aos instantes.
Não é preciso ser devoto, mas é bom acreditar em Deus ou nalguma ordem que não deixe as estrelas cairem nem sonhos despencarem no abismo, porque deles fazemos a trama da felicidade, uma engenharia complexa que demanda coragem , paciência e, às vezes, uma boa dose de aventura.
Estou fazendo a minha parte, espero que vocês façam as suas, sem se furtar da imaginação. Se comeremos os frutos não sei, mas deixo sementes no pomar. Os pássaros, como sabem, plantam longe as grandes florestas, fecundando territórios inóspitos que se transformam em massas verdes de esperança. Eles não perguntam quem aproveitará a sombra gloriosa da figueira, mas sabem que as raízes da árvore-mãe abraçam a Terra como pensamentos íntimos que dividimos com poucos.
Que os sonhos floresçam neste ano ano de júbilos e desejos.
(* Texto escrito em 2008 e válido para todo ano que se inicia)


