Carta a Wagner Moura depois do Oscar
'O Agente Secreto' conquistou cerca de 70 prêmios pelo mundo, então não estou nem um pouco decepcionada com a falta de um Oscar
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sábado, 21 de março de 2026
'O Agente Secreto' conquistou cerca de 70 prêmios pelo mundo, então não estou nem um pouco decepcionada com a falta de um Oscar

Caro Wagner Moura, preciso lhe dizer uma coisa: não fiquei assim tão chateada pelo fato de "O Agente Secreto" não ter ganhado um Oscar. Este filme fabuloso para o cinema brasileiro ganhou prêmio de Melhor Direção e Melhor Ator com você em Cannes, na França, e duas Palmas de Ouro num festival europeu de prestígio não é pouca coisa. É muita!
Além disso, o filme dirigido por Kleber Mendonça Filho conquistou uma enxurrada de prêmios, cerca de 70 pelo mundo, então não estou nem um pouco decepcionada com a falta de um Oscar. Na verdade, senti um certo alívio pelo fato do prêmio ser de um país pelo qual tenho perdido a admiração vertiginosamente.
Explico, num podcast que fizemos antes da entrega do Oscar, perguntei sobre a politização da cerimônia neste ano, tendo em vista as guerras, e o crítico de cinema Carlos Eduardo Lourenço Jorge disse que, talvez, "as manifestações não fossem tão expressivas porque a indústria cinematográfica americana é francamente sionista, o que a move é dinheiro sionista" e, por mais que a gente queira separar as coisas, o Oscar revela muito dos Estados Unidos, de Trump e - por que não?- de Netanyahu.
Eles continuam premiando o supremacismo "deles" e por isso há tantos filmes norte-americanos que pegam carona nisso, como "Marty Supreme", que também não ganhou um Oscar, mas é uma propaganda evidente do "heroísmo norte-americano" no cinema, nos esportes e na política, segundo a ótica deles. E quantos filmes não engolimos sobre as guerras, quantos faroestes com o extermínio dos indígenas.
Hoje, os EUA são um país em decadência em várias áreas, da política à economia - a dívida pública do país, até outubro de 2025, estava em cerca de US$ 38 trilhões de dólares - e a queda passa também pelas artes. Não à toa, o site Omelete, especializado em cinema, classificou o Oscar deste ano como "Hollywood tentando salvar Hollywood" porque, no fundo, é isso: eles premiam a si mesmos.
Em 98 anos de Oscar, mais de 90 produções norte-americanas venceram como Melhor Filme. Só quatro filmes estrangeiros foram vencedores nesta categoria - "Parasita", "O Artista", "Nomadland" e "O Discurso do Rei", e três deles são co-produções. Isso diz muita coisa.
Viva o ator espanhol Javier Bardem que fez um discurso em defesa da Palestina e contra a guerra na 'casa' do Oscar. Ele foi corajoso porque atores são perseguidos quando criticam as guerras e invasões pelo mundo, assim como jornalistas são ameaçados quando dizem algumas verdades. Mas como ensina Guimarães Rosa: "o que a vida quer da gente é coragem."
Por outro lado, Maria Fernanda Cândido, que é de Londrina e atriz de "O Agente Secreto", disse uma coisa notável: "Os EUA se abrem para outros países porque sabem que têm que renovar suas velhas fórmulas no cinema." Eu acho que se abrem sim, 'pero no mucho.'
O que gosto em "O Agente Secreto" é que trata-se de um filme que tem as cores do Brasil, as paisagens de Recife, as lendas urbanas que os brasileiros entendem, uma linguagem que canta em nossos ouvidos porque a compreendemos bem.
Então, viva o cinema brasileiro, com ou sem Oscar. Estamos numa fase ótima, representativa, é muito bom ver a nossa cara nas telas. E esse é o nosso maior prêmio: ter identidade cultural!
Sem mais, despeço-me com um abraço de Londrina para Recife.


Celia Musilli
Editora de Cultura e colunista.


