Acordei com as palavras latinas carpe diem na cabeça. A ressonância que me faz pensar e sentir sobre a existência vem de longe, ecoa pelos séculos, foi uma "sacada" do poeta Horácio em suas Odes fazendo parte da sua conversa com uma interlocutora chamada Leucônoe,a menina “dos pensamentos ingênuos", que se dedicava a fazer cálculos astronômicos para saber se eles viveriam muito tempo.

O poeta diz a ela: carpe diem, no contexto de um verso maior,e isso significa: aproveite o dia, aproveite o momento, curta a vida, viva o presente.

Na última quinta-feira, enquanto cortava cebolas antecipando o almoço, as palavras carpe diem ressoavam no meu pensamento. Enquanto cortava fatias finas, ouvia o choro de uma criança no prédio. Ela chora todos os dias, nos mesmos horários, os pais na maioria das vezes a atendem com paciência, às vezes perdem a calma. Enquanto a ouvia, pedia internamente que os pais entendessem aquele momento, o momento do choro da criança, e o celebrassem aproveitando o dia.

Educar um filho é infinitamente mais delicado que cortar cebolas, mesmo quando capricho. Ensinar as primeiras palavras, o sim e o não, a fazer escolhas, é uma tarefa sensível que fazem os dias valerem a pena. Ali está uma pequena pessoa sendo criada para uma existência inteira. A forma como lidamos com seu choro ou seu sorriso irá repercutir na sua alegria ou sua angústia no futuro.

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, | Foto: Marco Jacobsen

Ultimamente, esbarramos muito na questão do presente e do futuro por causa da pandemia e tenho refletido sobre o que vale a pena. Até por isso, no dia de 24 horas em que escrevo esta crônica, pela primeira vez, em anos, não o fiz de forma afobada. Como vocês sabem os jornalistas são sempre apressados. Mas neste instante, não!

Nem tudo na vida é planejado, a mente nos trai, os pensamentos são mais livres que nossas necessidades de atrelá-los à cordinha da correção. Por isso, aproveito os atos falhos e o choro cotidiano da criança para escrever. Guardadas as proporções, os textos são filhos que colocamos no mundo, como os versos de Horácio que pontuou lá atrás o carpe diem.

Horácio viveu entre 65 a.C. e 8 a.C.,suas palavras atravessam os séculos e ressoam. É bom que coisas tão antigas ressoem e que possamos pegá-las como quem atira linhas. Minhas linhas às vezes pescam peixes antigos, às vezes antecipam o futuro e pego um peixe que nem nasceu. Essa é a matéria do texto, um esgarçar de tempos no qual posso imaginar o tempo de Horácio, com populações menores, mas sempre em guerra. O tempo de Horácio reflete-se em nosso tempo. Trata-se da mesma tentativa de calma que ele sinaliza para Leocônoe angustiada. Nada sabemos sobre nosso tempo de vida, nem pelos cálculos astronômicos.

Neste tempo de pandemia, em que vemos a morte mais de perto, não há por que se preocupar se não com o dia, este pequeno espaço que soa como uma vitória. A minha vitória, a sua vitória, finalmente cabem em 24 horas.

Esse momento de incertezas nos ensina a viver melhor. E como tenho tempo, porque já cortei as cebolas, deixo a conclusão, se existe, às palavras de Horácio, na parte que ele invoca o sentido célebre de carpe diem em sua Ode.

Tu não questiones — é crime saber — o fim que para mim, que para ti
os deuses reservaram, ó Leucônoe, nem mesmo consultes
os números babilônicos. Quão melhor é suportar o que quer que venha!
Quer Júpiter te haja concedido muitos invernos, quer seja o último
o que agora quebra as tirrenas ondas contra as pedras,
sejas sábia, diluas os vinhos e, por ser breve a vida,
limites a longa esperança. Enquanto falamos, foge invejoso
o tempo: aproveita o dia, minimamente crédula no amanhã.
(Odes I, 11.8, de Horácio)
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