Faltando poucos dias para a primavera, os ipês florescem, são sempre os primeiros em cachos tão bonitos quanto frágeis, beleza que exige uma fotografia antes que o vento a carregue.

Mas fotografar ipês nas ruas nem sempre é fácil. Os olhos não se despregam deles, mas um emaranhado de fios escuros atrapalha a vista no Calçadão de Londrina, a competição da beleza com a feiúra é jogo duro.

São décadas de postes fincados, transformadores enfileirados, fios de dependurados como uma cabeleira onde não entra um pente. A paisagem urbana desenhada pelo homem tem mais fios que árvores e, ainda assim, os fios sempre prevalecem em dias de podas e cortes.

A energia elétrica é necessária ou eu nem estaria no computador descrevendo a feiúra das cidades. Mas harmonizar com a natureza exige uma dose de capricho, além da utilidade. Passaram-se décadas de fios sobrepostos, ninhos de cobre revestidos, pontas unidas ou soltas, energia passando ou interrompida. Um estranho tráfego que só há pouco tempo recebeu reparos das companhias públicas. Leio que toneladas de fios inúteis foram retiradas das ruas e avenidas de Londrina há poucos meses. Ainda assim, tentem fotografar uma florada de ipês sem que um emaranhado não tape a visão, uma fiação pesada não balance sobre sua cabeça ou um poste de concreto não rivalize com um tronco com o cartaz da Vidente Laura que promete trazer "seu amor de volta em apenas três dias".

A poluição visual no Calçadão de Londrina está longe de anunciar a primavera, a pintura dos bancos e das escadarias não desenha uma nova paisagem, sem contar problemas que beiram à insalubridade, para não dizer à falta de higiene.

O Calçadão foi projetado pelo arquiteto e urbanista Jaime Lerner, que foi também governador do Paraná, uma inspiração mestiça dos boulevards, com seus cafés ao ar livre, com o calçamento de petit-pavé, criado pelo também arquiteto Hely Brêtas de Barros, que remetia aos trançados caingangues, origem de nossa cidade no cruzamento de culturas.

Sobrou um calçamento popular em seu maior espaço, sem nenhuma identidade, sumiram os quiosques e as bancas de revistas. As mesas nas calçadas dos bares, no centro histórico, hoje substituem em parte esse espaço de convivência, mas atrapalham pedestres. O Calçadão originalmente criado para esse fim, voltou a uma concepção provinciana, depois de várias gestões municipais.

O maior problema são as caçambas de lixo ao lado do chafariz que precisam urgentemente de solução pública. O mau cheiro, o derrame do conteúdo dos sacos empilhados com os restos das lanchonetes e dos apartamentos da avenida Paraná não podem ser considerados um cartão-postal no que seria um dos portais do Calçadão.

Ainda assim, a florada de ipês conquista quem passa e, através da feiúra, as árvores se abrem como janelas poéticas para anunciar acima dos postes que, apesar de tudo, vem aí mais uma primavera.

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