CÉLIA MUSILLI -

As redes sociais prejudicam crianças e adolescentes?


Na última terça-feira (5), enquanto o Facebook, Instagram e WhatsApp  sofriam um apagão que durou cerca de seis horas,  a afirmação sobre a má influência das redes tomava voz no Senado dos EUA através das denúncias de uma ex-gerente da rede de Mark Zuckerberg.


O Facebook foi alvo de críticas de Frances Haugen, 37 anos, que enumerou o que considera riscos à democracia, na forma de polarizações políticas e abusos protagonizados por  usuários  da rede social.   Neste sentido, seu apelo foi para que o Facebook seja regulamentado, já que ainda não é. Além disso, ela denunciou o que todo mundo finge não saber: as redes priorizam o crescimento - leia-se o lucro - sobre a segurança de seus usuários.


As pessoas se  tornam mais vulneráveis nas redes e os mecanismos de proteção contra os ataques são frágeis, isso se relaciona não só com a vida política, mas com a vida privada. Nas redes, a intimidade é escancarada da mesma forma que os produtos de limpeza. Todo mundo anuncia, todo mundo posta, todo mundo diz o que pensa sem pensar muito. E há casos de pessoas que se tornam vítimas de bullying ou linchamento virtual por suas posturas pessoais, sociais ou políticas. 

 

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. | Marco Jacobsen
 


Uma mistura de realidade e ficção - já que nunca sabemos se estamos lidando com pessoas ou personas - induz a emoções que vão da admiração ao desprezo. Há casos de sofrimento explícito e até de suicídio  por conta disso.

Uma das denúncias mais sérias de Frances Haugen diz respeito a uma pesquisa que mostrou que o Instagram impacta a saúde mental dos adolescentes, mas a empresa não compartilhou essas descobertas que sugeriram que a plataforma é um lugar tóxico.  De acordo com a pesquisa, 32% das adolescentes entrevistadas disseram que se sentiam mal com seus corpos e que o Instagram as fazia se sentirem pior ainda. Mas é cada vez mais difícil tratar essas feridas quando milhares de jovens passam seus dias de rede em rede.



A ex-gerente do Face afirma: "O Facebook percebeu que se mudar o algoritmo para ser mais seguro, as pessoas vão passar menos tempo no site, vão clicar em menos anúncios, e eles vão ganhar menos dinheiro." Isso significa que somos regulados por uma coisa - e o nome disso é algoritmo - que programa uma sequência de ações para levar a um resultado que seja benéfico à...empresa.

O chamado ranking de engajamento é o sonho de dez entre dez influencers que desejam estar no topo. As plataformas são uma espécie de espelho - "espelho meu" -  que  expõe pessoas a um nível de baixa autoestima difícil de administrar.



Quase todas as meninas crescem com o desejo de serem lindas e desejáveis. Isso não é novo, mas as redes propiciam um grau de exposição nunca visto ancorado em padrões que configuram um mesmo desejo.  E quem não for tão dotada sente uma indisfarçável frustração porque todos os dias está diante do "espelho, espelho meu" que convida à comparação através de algoritmos que nos levam aos mesmos anúncios, às mesmas caras e bocas, enfim, aos mesmos padrões configurados para mexer com nossos impulsos mais íntimos. 


Tenho filhos jovens que se impressionam com o grau de envolvimento do qual são vítimas quando abrem uma única vez o anúncio de uma guitarra e ele passa não só a aparecer como a "perseguir" o provável comprador. Espertos, alguns já sabem o momento em que devem cair fora. Mas nem todos têm esse discernimento, o que transforma o admirável mundo novo numa espécie de algoz que alimenta e suga nossas emoções. A consequência disso já foi percebida, mas vai longe o dia em que o "não" vai prevalecer sobre o "sim" num universo tecnológico de adestradores de vontades.

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Os artigos não refletem, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina.

 

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