As mortes em favor da vida
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sexta-feira, 23 de março de 2018
Poderia escrever sobre cultura neste fim de semana, assuntos leves, artes e espetáculos, mas às vezes a gente atravessa o samba, quando a realidade pede passagem, abrindo espaço para a indignação e a luta.
Paulo César de Almeida Nascimento, ambientalista que denunciava a contaminação pesada promovida pela empresa norueguesa Hydro Alunorte, no Pará, foi assassinado a tiros esta semana. O crime ainda não foi elucidado.
Para muita gente essa notícia passou batida, não existe, nem merece atenção nas redes sociais nas quais predominam as bobagens, as fofocas e outros tipos de envenenamento que não passam pela água e o solo.
Eu,sinceramente, me toco e me condoo com a morte desses heróis da floresta, esses caboclos da mata, geralmente associados a indígenas, quilombolas e outros povos "atrasados" que enfrentam capangas, madeireiras e poderosas multinacionais que também vêm grilar nossos recursos, sem sequer pagar impostos à altura das lambanças que promovem, matando rios, matando territórios e matando gente. As multas também são insuficientes quando ocorrem desastres ambientais de grande dimensão, das quais muitas empresas recorrem e ganham a causa em favor da poluição.

Eu me toco e, sinceramente, me condoo por esses caboclos mortos que lutam até o fim pelo que acreditam, na tradição do grande Chico Mendes. Paulo César morreu perto do casebre em que morava na floresta, à noite, quando foi à casa de banho geralmente fora habitação naquela região pobre e foi pego numa emboscada na escuridão. Em questão de minutos, mais um ambientalista estava morto, logo ele, protetor das florestas, ele, e não as multinacionais interessadas no alumínio ou na bauxita; não os governos sucessivos que cospem veneno em nossos rios; nem as autoridades e as polícias que protegem milícias que matam militantes.
A empresa norueguesa, embora trabalhe no meio da floresta brasileira, destina 86% de sua produção à exportação. A barragem do polo de refino de metal pesado cedeu e contaminou a área, os moradores do local reclamam do cheiro ruim nos rios e córregos, falam de dores pelo corpo, mostram a água turva e de gosto alterado, desses que não dá para beber. A exemplo do desastre do Rio Doce em Minas Gerais, as tragédias aos poucos vão sendo esquecidas, muitas vezes sobram apenas lembranças encobertas pela lama, lama que é o retrato vivo do descaso. Metáfora da contaminação.
Sinto tristeza pela morte de mais um ambientalista na Amazônia. Eles são tipos raros, de muito valor, dificilmente são substituídos, vítimas de empresas e países que consideramos e saudamos como desenvolvidos, mas que jogam a sujeira no quintal dos outros. Os índios e caboclos são infinitamente mais respeitosos com o meio ambiente e a natureza do que noruegueses, alemães, americanos, franceses e chineses que não tratam com rigor sequer os chorumes e resíduos que produzem com a exploração de nossos minérios, com a complacência de governos que reduzem a fiscalização a condições anêmicas até a morte de tudo: de rios a gente. Eles não vão sossegar enquanto não matarem o país inteiro.



