Arte a meio-pau?
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sexta-feira, 18 de maio de 2018
"Não será o medo da loucura que nos forçará a hastear a bandeira da imaginação a meio-pau." A frase célebre, escrita por André Breton no Manifesto Surrealista, em 1924, ainda ressoa a cada vez que um artista precisa evocar a condição essencial da liberdade de expressão que, por consequência, moldará comportamentos e culturas. Lembrei-me dela na última terça-feira (15), quando assisti à palestra sobre "Arte e Política", dada pelo filósofo Eduardo Wolf, dentro da programação do evento UEL A Casa da Tolerância que, até o fim do ano, trará a Londrina expoentes do pensamento conservador.
O palestrante, editor da plataforma digital O Estado da Arte, do jornal O Estado de S.Paulo, tem larga experiência e convivência com diferentes posturas em relação a manifestações artísticas. De modo que me senti à vontade para discordar de pontos apresentados por ele como reação à dinâmica cultural do atual momento brasileiro, no qual a censura, aquela velha senhora, dá as caras novamente numa série de embates mais políticos do que propriamente estéticos, com boicotes à esquerda e à direita.
Um dos pontos em debate, o financiamento de obras artísticas com recursos públicos, ganhou do palestrante a observação de que o dinheiro dos impostos não deveria servir para financiar todo tipo de obra. Um argumento que veio acompanhado de preleção sobre a qualidade das obras artísticas postas em xeque, tendo em vista a arte contemporânea que vem sendo criticada por excessos ou esvaziamento de propostas. De minha parte, acredito que, por princípio, a arte deva sim ter fundos públicos de financiamento, porque a arte é um direito tanto quanto a educação. Aliás, a arte promove a educação, mais que isso, promove a cidadania e sem recursos públicos a maioria da população não teria oportunidades fantásticas como os festivais que há décadas estimulam a arte, a cultura, a educação e a cidadania em Londrina, através do Programa Municipal de Incentivo à Cultura - Promic - e outros fundos, só para ficar num exemplo próximo.
Levando-se em conta uma sociedade plural, é preciso ressaltar que não é porque um artista expressa-se de modo que desagrada ao público A, B ou C, que ele deve ser limitado, por falta de recursos, de modo que sua produção desapareça para não afetar a sensibilidade ou o gosto de quem a desaprova. Na essência, este seria um argumento primário numa sociedade diversificada, na qual alguns valorizam a obra clássica, outros a contemporânea e existem ainda aqueles, como eu, que têm especial predileção pelo experimentalismo, sem o qual as linguagens não evoluem e sem o qual estaríamos ainda dançando o minueto.

Se a arte for tratada apenas como mercadoria, não como um bem público, veremos só a eclosão ilimitada dos fenômenos midiáticos como a música sertaneja, o axé e o funk que recebem rios de incentivos privados porque enchem os cofres da indústria cultural. A privatização da cultura decerto nos privaria da ousadia de quem nada contra a corrente mercadológica hasteando a bandeira da imaginação, sem medo da loucura, como propôs Breton num longínquo manifesto dos anos 20 que determina, ainda hoje, um dos princípios mais importantes da vanguarda. O que não significa que a indústria cultural, com sua especial predileção pela arte fácil, não possa também investir em projetos complexos, sofisticados ou até enxovalhados pelos que insistem na mesmice.
Acontece que numa sociedade plural, na qual a cultura deve continuar sendo vista como um bem comum - e até por isso é beneficiada por editais e leis de incentivo que se valem de impostos pagos por todos - a arte tem sido instrumentalizada para fins políticos. Neste sentido, um grupo de conservadores "moderninhos" passaram a boicotar exposições em museus e performances valendo-se de um moralismo através do qual a velha senhora, a censura, volta a exibir seus dotes apontando, por exemplo, a nudez artística como "não merecedora de incentivos públicos", porque é a esse tipo de raciocínio que se quer levar o senso comum privilegiando-se a arte comportada, vista como "a boa arte" ou "a alta cultura", o que se constituiu um equívoco histórico. É a essa conclusão que se chega quando observamos que todos os escândalos protagonizados no ano passado, tanto em museus quanto em performances em espaços públicos, deveram-se ao "pecado" da erotização da arte ou nem isso - dentro de contextos de vanguarda. No encalço disso, chegam os questionamentos quanto a arte ser financiada ou não por recursos públicos. De minha parte, acho que a Vênus de Botticelli, aquela peladona esperta, deve estar rindo muito dessa capciosa associação.



