Apocalipse nos Trópicos irrita Malafaia por seu próprio discurso
Filme de Petra Costa, na Netflix, toca num ponto nevrálgico: a relação das religiões com a política nacional
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de julho de 2025
Filme de Petra Costa, na Netflix, toca num ponto nevrálgico: a relação das religiões com a política nacional

O documentário "Apocalipse nos Trópicos" chegou à Netflix no dia 14 de julho, ficando no Top 10 na semana de estreia.
Aplaudido por uns, criticado por outros, o filme é daqueles que vira alvo fácil porque toca num ponto nevrálgico: a relação das religiões com a política brasileira. Há pontos fortes e fracos no trabalho da cineasta Petra Costa. Ela põe de novo a mão na caixa de marimbondos em que se transformou a política nacional, a exemplo do que fez com "Democracia em Vertigem", de 2019.
Entre os méritos do filme, considero o fato da cineasta se valer do próprio discurso de Silas Malafaia para mostrar o fanfarrão por trás do "cristão." Consta que ele se irritou ao se ver nas telas como é.
No filme, a bandeira do egocentrismo e da sociopatia de Malafaia sai do armário por sua própria boca. É ele quem incita fieis da sua igreja, a Assembleia de Deus Vitória em Cristo - que nem é tão dominante no ramo evangélico - a tomar o partido da extrema direita no Brasil, embalado no discurso de quem interpreta a Bíblia de acordo com suas conveniências.
É ele mesmo quem mostra às câmeras seu jatinho onde está escrito "Favor de Deus" - como se o Senhor precisasse disso nas alturas.
São dele também as demonstrações de falta de empatia - por sinal, nada cristã - quando está no trânsito praguejando contra quem buzina ou lhe passa à frente, mostrando mais a personalidade de um atirador de facas do que de um pacificador de rebanhos.
Mas Malafaia, embora pretenda, não é o "porta-voz" dos evangélicos. Há muitos ramos na religião e alas progressistas que não concordam com a guerra cultural proposta por ele, na linha do falecido Olavo de Carvalho, ao incitar fiéis contra o feminismo ou contra as universidades por sua "tendência marxista."
Há setores da igreja evangélica que não adotam esse pacote e, inclusive, defendem políticas públicas para universidades, para as mulheres e para a população LGBT, em consonância com o que se pretende do cristianismo com o acolhimento a partir da fé.
Se Petra Costa erra a mão na crítica generalizada aos evangélicos, acerta ao mostrar as engrenagens da máquina político-religiosa que existe no Brasil. Fica evidente o fanatismo em manifestações de rua - principalmente após Bolsonaro perder as eleições para Lula - e a pretensão de transformar a democracia brasileira numa teocracia, com Malafaia sugerindo um ministro evangélico como critério para o STF.
É difícil fazer uma análise apurada em espaço limitado, muitas abas escapam num artigo de três mil caracteres. Mas o "Apocalipse" de Petra Costa tem também aspectos instigantes, principalmente por seu viés documental da relação político-religiosa, com foco nas eleições de 2022 até hoje.
Impressionante como as câmeras entram nas vísceras do processo desde a campanha eleitoral até o 8 de janeiro, no qual a cineasta não se aprofunda por um detalhe estarrecedor: quando a equipe filmava o quebra-quebra na Praça do Três Poderes, um cidadão bolsonarista se apropriou do cartão de memória das filmagens e o COMEU. Deve ter pensado que mastigaria a destruição que queria ocultar.
O filme tem o mérito de registrar um cenário nacional apocalíptico, embora o termo, em grego, não signifique destruição, como muitos pensam, mas revelação. Neste sentido, fica revelada, com propriedade, a face autoritária de Silas Malafaia, praguejando, xingando e esbravejando como um profeta do caos. Mas isso não representa a religião evangélica, mas apenas um excesso - ou os acessos de raiva - de um líder que se acha o dono da verdade.


Celia Musilli
Editora de Cultura e colunista.


