Na última segunda-feira (8) , morreu a cantora, compositora e pianista Angela Ro Ro. Acrescento que morreu uma grande poeta da música brasileira, um fato para quem não presta atenção apenas em melodias, ritmos e interpretação, presta atenção às letras. Pertenço a esse time, talvez, porque meu ofício é escrever.

Durante a semana, revisitei sucessos de Angela Ro Ro, aqueles que punhamos para tocar nos anos 80/90, depois de uma briga de amor. Eram músicas com letras primorosas, até vir o ocaso de grandes artistas como a própria Angela ou Cazuza, com a chegada do axé e do sertanejo, com letras e músicas bem mais toscas, fazer o quê?

Restou o domínio do sacolejo que apaga o lirismo a que poucos ainda dão valor ou não consumiriam tanta porcaria, de ritmos repetitivos, temas que não saem do lugar, com a poesia rareando entre gritos de satisfação pelo sempre igual.

Resgatei letras de Ro Ro que fazem todo sentido com a música derramada ao piano:

"Amor, meu grande amor

Não chegue na hora marcada

Assim como as canções

Como as paixões e as palavras" (Amor, Meu Grande Amor)

Ou:

"Rompe a manhã da luz em fúria arder

Dou gargalhada, dou dentada na maçã da luxúria, pra quê?

Se ninguém tem dó, ninguém entende nada

O grande escândalo sou eu aqui só" (Escândalo)

Os versos tratam da vida como ela é. O vivido está nas letras que dão pistas da intensidade de alguém que escrevia como sentia. Um sentimento que, às vezes, era sobreposto por um "escândalo", que aparece na letra das músicas e nas lembranças de amigos de bar onde Ro Ro "quebrou tudo", sem que isso precise ser manchete até hoje.

Ro Ro viveu os anos da liberdade coletiva, da música feita por bandos que frequentavam o Circo Voador, no Rio, trampolim de onde saltaram Asdrúbal Trouxe o Trombone, Regina Casé, Patrícia Travassos, Evandro Mesquita. Depois vieram outras vanguardas como Legião Urbana, Blitz, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Debora Colker. Além dos shows e espetáculos, o Circo mantinha atividades como capoeira, creche e até uma horta caseira. Era disso que tratava a liberdade coletiva.

Não dava para ser careta num mundo que se abria sem as sombras que avançariam pelos anos 2000, até hoje, para uma apoteose de intolerâncias.

Se a massa acompanhou as vanguardas nos anos 80 e 90, depois passou a se fechar para elas, até chegar a uma falta de experimentalismo existencial em que bastam o laço, a bota e o chapéu, uma voz estridente e letras sem graça para fazer sucesso.

Com exceções, o Brasil atravessa o ocaso da liberdade e da criatividade, pelo menos no produto destinado às massas. O que toca nas rádios sem parar, quando viajamos de Uber, é um sinal do satélite da caretice geral.

Por isso, quando morreu Angela Ro Ro fui resgatar suas músicas, as letras sensíveis, a interpretação visceral com a voz rouca que lhe deu o apelido na infância: Ro Ro.

Ali, com o fone no ouvido, recostada no travesseiro, percebi que fazia tempo que não adormecia com a poesia que essa estrela me devolveu.

Angela é um quasar que ainda pulsa, apesar da morte das coisas belas.

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