Aguda ou crônica?
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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018
Lembro-me da música "Nervos de Aço", célebre composição do gaúcho Lupicínio Rodrigues que diz: "Há pessoas de nervos de aço/ Sem sangue nas veias e sem coração/ Mas não sei se passando o que eu passo/ Talvez não lhes venha qualquer reação."
O poeta se queixa da traição de uma mulher, mas lembrei-me dela por uma traição da minha coluna lombar, na última quarta-feira, quando percebi que não tenho nervos de aço. Havia acordado com a dor do "mal jeito", mas nada que merecesse mais que os cuidados de praxe como alongar, tomar banho quente, massagear com Doutorzinho ou Gelol, e seguir o dia. Porém, ao me abaixar para regar uma planta teimosa, que sempre solta galhos na direção errada, senti no movimento brusco que alguma coisa se mexia dentro de mim, bem ali, na parte mais baixa das costas, essa senhora que já carrega peso há vários anos, mas que nunca havia se queixado com grito tão alto.
Literalmente travada, depois que o animal se mexeu dentro de mim, chamei o filho e roguei aos santos para voltar àquela condição digna de todo bípede: ficar em pé. Mas que nada, fiquei algum tempo ali, como um gancho ou um V invertido com as mãos no chão. Depois disso, chegou a hora do médico e de atualizar a ficha cadastral na clínica de ortopedia. Enquanto fazia caretas, para dar o novo número do celular à recepcionista, ela, com a paciência que Deus lhe deu, deve ter pensado que eu era fugitiva de outra clínica, de psiquiatria.

Entro na sala asséptica, falo da dor e de que já havia feito acupuntura. O médico ri, disfarçadamente, descrente das agulhinhas que possam propiciar algum bem para males da coluna. Pede exames imediatos, faço raio X, nada de grave a não ser a má postura e, possivelmente, o péssimo hábito de trabalhar horas seguidas sem me levantar da cadeira. O médico não disse nada sobre alongamentos, yoga, exercícios. Cético, manda-me tomar injeção e cápsulas variadas de antiinflamatório, analgésicos e codeína, que recusei. Se for para tomar ópio prefiro que seja numa boa casa da China, aquela em que os usuários ficam no meio da fumaça e, com duas baforadas, fazem a cara de quem chegou ao paraíso.
Um dia de repouso, e depois de muito analgésico, estou pronta para escrever nova crônica que só poderia ser sobre a dor que cortou um dia útil, provocando ilações: "É possível ser bípede por quantas décadas?" "O que fazer quando você se transforma subitamente num gancho, sem ajuda por perto?" "Com quantos alongamentos se constrói uma coluna forte e com quantas curvas ela se transforma numa estrada daquelas de serras que levam à praia?"
Com tantas perguntas, melhor ir à luta, tentando recuperar um pouco da boa postura que a gente perde até sofrer um acidente de percurso. O poeta João Cabral de Melo Neto, que teve enxaqueca a vida toda, escreveu um poema à aspirina. Lupicínio Rodrigues preferiu fazer a ode à dor emocional do mal de amor. De minha parte, apenas denuncio a dor da coluna lombar que nos põem a pique, como um navio que bateu na pedra. Mas nossa coluna não é de pedra, tampouco de aço, desconfio mesmo que seja um delicado feixe de seda responsável por todo nosso movimento e disposição.
Então vamos cuidar da coluna com o molejo que inspira os exercícios, as caminhadas, a dança. Ela só responde à vida e costuma travar quando percebe que a matamos um pouquinho com o estresse de cada dia. Aprendi que a dor aguda é aquela que nos pega subitamente, no cotidiano, durante uma tarefa ou um tombo. A crônica é a que dura mais de três meses e costuma ser recorrente. A diferença é que uma pode ser só um episódio, a outra uma novela inteira. Já o texto não deixa de ser crônica,que me pega de jeito sem doer tanto.



