A vida no Bosque
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 25 de agosto de 2017
O Bosque Central de Londrina faz parte do meu cotidiano, com a visão de suas árvores durmo e acordo, até por isso o local já foi tema de algumas crônicas. Cada um escreve sobre o que vive, se gostasse de novelas não falaria em árvores.
O Bosque também faz parte do meu imaginário, por seus caminhos, nos anos 40, meus pais namoravam e um dia encontraram nas suas trilhas uma lapiseira que guardo até hoje. Ela agora seria confundida com um OVNI, um objeto não identificado, por seu design de cápsula do tempo, grande e pontiagudo como um foguete lançado no passado para viajar ao presente. Guardo-o como um suvenir, mais que isso, um trunfo sobre a vitória do amor.
Hoje, o Bosque já não me atrai para caminhadas, cansei de levar bombas lançadas pelos pombos, além de andar apressada com medo dos mal encarados que às vezes estão por ali. Mas no seu entorno, em sua rua central, no parquinho, na quadra e no espaço dedicado aos aparelhos de ginástica surge um outro Bosque, bem mais ingênuo. Há crianças jogando bola nos fins de semana ignorando o tráfico. Há religiosos que pregam de forma enfadonha ignorando o tráfico. Há idosos jogando baralho despreocupadamente ignorando o tráfico.
Mais que isso, restam ainda algumas árvores centenárias que fazem sombra para as crianças e réstias de luz que me fazem pensar que o paraíso manda lembranças aproveitando as frestas daquela massa verde que desafia o tempo.
Nos anos 30, os colonizadores ingleses planejaram o Bosque, foi doação da Companhia de Terras Norte do Paraná num tempo em que havia ali perto uma quadra de tênis. Cerca de 20 mil metros quadrados de terra transformaram-se então em local de lazer, acompanhando uma tendência mundial de criar espaços verdes em cidades a serem construídas. Havia a visão de projetar essas áreas como um contraponto à arquitetura urbana. A ideia, ao longo de décadas, comprovou-se como um acerto planejado por gente visionária.

Hoje, o Bosque não chega a oferecer grandes riscos. Sucessivamente revitalizado ganhou iluminação, replantio de árvores e cuidados de jardinagem em várias gestões políticas, uma delas numa ação bem recente. Mas quem mora nas imediações do Bosque sabe que ali ainda há mistérios. Gritos e uivos saem do local sobretudo à noite e me fazem pensar nalgum lobo mau urbano. Passada a madrugada, o local volta a ser o mundo iluminado das crianças que batem bola, dos idosos que fazem ginástica, dos namorados que trocam beijos e talvez ainda encontrem objetos não identificados.
De minha parte, gosto de morar no bairro onde Londrina divide-se em dois mundos: um completamente ingênuo, outro dos vícios que deixam por ali até seringas descartáveis. Trata-se da vida como ela é, quando um fio tênue separa a luz da escuridão. Gosto de acordar ouvindo o coro de crianças que substitui os uivos noturnos. Um universo claro e outro escuro convivem no coração da cidade, isso nem os ingleses imaginaram, mas tenho a impressão que um já não se choca com o outro. Até por isso falo de urbanidades, como quem guarda palavras, risos e uivos numa cápsula do tempo a ser aberta como um testemunho da história do Bosque daqui a 50 anos.



