A vida em poucas palavras
As japonesas constroem cenários e, no calor de Londrina, se abanam com pequenos leques
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sábado, 17 de agosto de 2019
As japonesas constroem cenários e, no calor de Londrina, se abanam com pequenos leques
Celia Musilli - Grupo Folha 
Os hashis e os bonsais são típicos dos japoneses. O silêncio também. Lembro-me da vez em que entrevistei mulheres dekasseguis para uma revista de circulação nacional. Todas naquele mutismo peculiar das esfinges, ainda mais quando estavam acompanhadas dos maridos. A dificuldade era estabelecer com elas uma comunicação à maneira ocidental. Blocos de anotações ou gravador ligado de nada valiam nas entrevistas em que as respostas vinham como longos hã-hãs, movimentos de cabeça, aquiescências de queixos, olhinhos que se fechavam e se abriam. E o riso, como o barulho das passarinhas, só pontuavam as perguntas. As “entrevistas” duravam horas, tinha de me valer de percepção apurada para chegar à história de cada uma.
O que mais gostava era chegar nas casas, geralmente avarandadas e cheias de plantas. Avencas, bambus, hibiscos, bebedouros para beija-flor. As japonesas constroem cenários e, no calor de Londrina, algumas se abanam com pequenos leques.

Conversei com seis mulheres diferentes. As mais jovens tinham ido ao Japão para trabalhar e também se divertir. As mais velhas, na faixa dos 50 anos, falavam da experiência como uma missão cumprida. Uma delas passou sete anos trabalhando em Tóquio. Quando saiu do Brasil, deixou duas filhas adolescentes e um filho de apenas um ano. Para falar do aperto que sentiu, já ao tomar o ônibus para São Paulo, disse apenas que “naquela noite chovia muito e as lágrimas escorriam igual à chuva.” No Japão, contou em econômicas palavras, recebeu cartas e pequenas mensagens do filho. Desenhos que ele fazia na escola, cartões para a mãe ausente, lembranças de uma criança saudosa e que cresceu insegura. Até hoje, segundo ela, o contato com o menino é difícil.
Ela contou a pequena história sempre olhando para o marido, talvez para saber se ele aprovava sua interpretação. Ele não se manifestou. Hoje vivem em Londrina num sobrado, prêmio pela batalha travada na Terra do Sol Nascente. Lá, quando a saudade apertava, ela andava pelas ruas e adorava ver cerejeiras em flor. Duas imagens, as lágrimas na saída de Londrina e a mulher solitária na alameda de árvores em Tóquio, renderam um belo depoimento, em que as cenas contavam mais que as palavras.
Entre as japonesas, mesmo as nisseis ou sanseis, o silêncio cultural ainda é um traço forte. Elas falam pouco, mas são extremamente sentimentais. A vida , geralmente levada como árdua batalha, é sentida como uma experiência inevitável e que requer grande senso de dever. O prazer é reservado à família, às casas ajardinadas, aos quitutes feitos de maneira delicada. E, quando se revelam, o fazem numa demonstração de tudo o que as cerca, como se as flores, os animais, os quadros com paisagens típicas, fossem uma extensão delas próprias. As japonesas constroem cenários. E que ninguém tente abordar sua intimidade de forma ocidental. Elas desprezam palavras, mas se emocionam se você ri ou chora com elas.
(Crônica publicada originalmente na coletânea “Meu Brasil Japonês”, organizada por Pablo Augusto Vicente, em 2006, através do jornal Paraná Shimbum, com apoio do Promic)


