Os ídolos da minha geração estão envelhecendo. Assisti ao show de Eric Clapton, aos 79 anos, na última terça-feira. No ano passado, vi outro de Paul McCartney, aos 81 anos. Há uma semana, também assisti a um show de Arrigo Barnabé e Tetê Espíndola, ela comemorou seus 70 anos em Londrina, no palco, em pleno vigor.

Há muitas maneiras de envelhecer, tem quem faça shows quando o copo da idade está enchendo até quase transbordar, tem quem envelheça deitado, reclamando das dores que são reais, mas aumentam à medida em que a gente não as combate com uma dose de alegria, com ou sem uísque.

Sou do tipo que brinda até com água. Acho maravilhoso quem comemora ouvindo o tilintar das pedrinhas de gelo, não importa qual seja a bebida. Percebo que a alegria depende do despojamento de não se sentir velho e festejar o tempo como quem ouve o começo e o fim da música.

Tomo para mim a lição quando sinto dores nos joelhos, mas saio por aí para ver shows em cidades grandes ou pequenas, sem perder o teletransporte da felicidade que nos incentiva a estar em todos os lugares com um coração que teima em ter ainda 30 anos.

Musas de outras gerações também envelheceram. Brigitte Bardot completou 90 anos no dia 28 de setembro, lamentou a idade, disse que não aguenta mais fazer aniversários e afirmou que gostaria mesmo de ter 20 anos. Depois recompôs a frase, falando dos seus primeiros 50 anos, disse que não tem mais tempo para viver o que já viveu, mas que a fama lhe deu a condição de lutar pela causa animal e acho esse um bom motivo para celebrar a vida.

Sophia Loren também fez 90 anos no dia 20 de setembro. Comemorou como diva, eterna, com festa para 150 convidados e vestido de Giorgio Armani. São modos diferentes de encarar aniversários. Uma focando a causa animal. Outra fazendo a festa que corresponde aos seus melhores momentos. Se cada um de nós celebrar ao seu modo, a vida ganha mais colorido.

Não desejo a longevidade, mas um restinho de anos bem vividos. Acredito que o que nos move é a chama da liberdade de fazer o que se gosta. Ainda sonho em viver na praia. Mas vou olhar minha vida como um fragmento de tempo feliz mesmo que não alcance esse objeto geográfico de consumo.

Aqui ou lá, na cidade ou campo, o importante é não perder a beleza de um animal nascendo, de uma árvore que dá flores em plena seca, a alegria de beber um copo d'água, enquanto houver água, e ouvir o tilintar de uns gelinhos no copo que, no fundo, se parece um pouco com os anos passando e o tempo derretendo.

Preocupo-me com o futuro do planeta, talvez em duas ou três décadas não tenhamos mais tanta água ou tantas plantações que nos dão alimentos e dependem de terra boa.

Mas faço parte da geração que viu campos extensos, pedaços de floresta, praias relativamente limpas, acampamentos onde se ouvia Eric Clapton e Paul McCartney, enquanto um pôr do sol explosivo escrevia no céu um poema que captávamos mesmo sem óculos em 3D. A vida vale muito, mesmo que a dor nos joelhos incomode depois de duas horas de show para celebrar ídolos que vêm e que se vão.

A vida é um show a ser aproveitado até o último riff de guitarra.

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